Xico Sá

Modos de macho, modinhas de fêmea & outros chabadabadás

Perfil Xico Sá é escritor, jornalista e colunista da Folha

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O velho do ovo esquerdo de fora

Por Xico Sá
24/07/14 03:43

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“Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz.”

Tempos desses que parecem ontem estava conversando com o amigo e escritor Paulo Lins sobre a frase/verso de Vladimir Maiakovsky.

O mesmo poeta russo do “gente é para brilhar” etc.

Donde acabei por achar o personagem:

Feliz é o velho do ovo de fora. Nem aí para a humanidade. O ovo esquerdo, a parte mais delicada de um homem, flertando com o mundo em uma esquina de Copacabana.

Nem sei se presta atenção nestes detalhes particulares. Simplesmente veste a ceroula branca, clássica, e vai tomar sua cerveja.

Deve ter várias ceroulas brancas, umas 365 pelo menos. A única vez que o vi diferente estava com um calção de malha, igualmente relax, de um patriótico pijama verde-e-amarelo –era Copa do Mundo de 2014.

Só os meninos da banda punk “TeXtículos de Mary” me entenderiam a essa altura.

Quando o velho chega cedo ao Papillon, seu bar predileto na esquina da Miguel Lemos com a Barata Ribeiro, senta na calçada e o ovo toma um bronze sob o sol dos trópicos. Até aí, como diz o livro do Eclesiastes, nada de novo.

Alguns garçons, nos últimos verões, já o alertaram para o descuido. Ele nem ouve. Não há papo sobre o assunto, embora seja cada vez mais conhecido como o velho do ovo esquerdo de fora.

A bela licença poética de ser velho em Copacabana, dizem uns filósofos de botequim da área.

O bardo Fausto Fawcett, amigo de bairro e dos concertos do projeto “Trovadores do Miocárdio”, está de acordo, embora ache que o personagem seja bem mais rico.

Velho safado, nojento, sopram alguns passantes. Foi um grande artista de teatro, tv e cinema, outros narram a trajetória, sem precisão biográfica. Sequer alguém arrisca dizer o nome da tal figura.

Alheio a isso tudo está lá o ovão esquerdo. Faça calor ou clima ameno. Outro dia a Border collie de uma amiga resfolegava, em um momento de descanso, com a língua quase tocando naquele esquecido testículo. O velho e a cadela nem aí para a cena.

O ovo do velho é quase um personagem à parte em Copacabana, o bairro mais conhecido do mundo, onde reinam milhares de atípicas criaturas.

Por sacanagem, garçons do bar fizeram vaquinha para comprar calças compridas para encobrir as vergonhas do velho. Como se dinheiro para comprar roupas fosse problema do tio. Não mesmo. Goza de uma modesta, porém suficiente, aposentadoria de funcionário público da ex-capital da República.

Uma maluca viciada em crack faz bilu-tetéia com o ovo esquerdo do velho. Com delicadeza, óbvio. Ele sequer tira o olho do jogo do seu Vasco da Gama na tevê pela Segundona do Campeonato Brasileiro, meu caro Aldir Blanc.

O velho homem do ovo de fora é que é feliz e nem carece dessa ditadurazinha da felicidade óbvia.

Quando a eleição acaba amor e amizade

Por Xico Sá
22/07/14 01:21

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Até que a eleição nos separe, como diria o Amigo da Onça, o grande personagem de Péricles (na ilustração acima para os mais jovens).

Até que a eleição complique geral os relacionamentos. Seja no amor ou seja na amizade, começa a temporada de relações estremecidas por causa dessa velha invenção grega, a política.

Inevitável algum tipo de rusga quando o tempo fecha no botequim, no almoço de domingo na casa da sogra e principalmente nas redes sociais –essa imensa Boca Maldita virtual, só para lembrar o clássico local onde Curitiba discute as mais relevantes questões da humanidade, incluindo as mordidas do vampiro.

Até o começo dos anos 90, quando as coisas eram mais definidas entre esquerda e direita, dificilmente se formaria, entre os mais politizados, um casal de um(a) petista, por exemplo, com um(a) malufista.

Com a suruba eleitoral de hoje, como definiu o alcaide do Rio, as coisas mudaram muito. Óbvio que não é fácil encontrar um matrimônio entre um(a) jovem do PSOL e um(a) tucano(a).

O barraco ideológico até a apuração será inevitável. Não sei se isso é de tudo ruim. É democrático o embate, o conflito de ideias. Desde que não se bote a mãe no meio, como previsto já na Grécia Antiga.

Tem gente que tem paciência para a discussão; tem gente que não tolera. Óbvio:  se a amizade for firme mesmo, os laços de ternura irão estremecer mas resistirão às urnas.

Relacionamentos apenas virtuais, bem, esses serão destruídos em massa. A chacina já começou faz tempo

Não há manual para sair ileso. Se a Copa já foi politizada ao extremo, quando nego chegou a confundir CBF com órgão público, imagina na eleição, infinitamente mais passional e inflamável.

O arranca-rabo será ao melhor estilo Beco do Cotovelo, a tribuna pública de discussões filosóficas de Sobral (CE). Não foi à toa que ali mesmo, em 1919, a equipe de Albert Einstein comprovou, diante de uma eclipse do sol, a Teoria da Relatividade.

O pau vai cantar. O nível vai ser mais abaixado que mecânico de skate.

E você, leitor(a), já adotou um critério para usar nas redes sociais? Vai limar do seu círculo de relacionamento os amigos da onça?

Mesmo um pacífico anarquista-cristão da linha Tolstói, naturalmente contra o voto burguês, deve perder a paciência em algum momento.

Enfim, em que casos, você acha que é inevitável estragar uma amizade por causa das eleições?

O homem fofo é o canalha de fato

Por Xico Sá
18/07/14 00:31

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Ovídio, meu eficiente pombo correio do amor, não cansa de trazer mensagens e mais mensagens de corações trincados ou simplesmente descrentes nos homens. Ovídio arrulha, como se dissesse: meu amo, meu paciente conselheiro sentimental, te viras que a bronca é pesada. Novos ares, partiu, e lá se vai a avoante figura sobrevoando as encostas do morro do Cantagalo em busca de novas cartinhas.

O principal assunto das cartas que tenho recebido é o seguinte: o cara vem cheio de chabadabadás para cima das moças -principalmente nas redes sociais-, a conversa pega fogo, rola o encontro, o rapaz é fofo e carinhoso, o sexo para começo de história está ótimo, o menino joga na linguagem de um possível caso ou namoro, segue a vida, mais uma saída, um sexozinho gostoso de novo…

Alguns dão até presentinhos…

Fofo!!!

Aí do nada o desgraçado desaparece. Quebra geral a narrativa. Nem um sinal de tambor na floresta, necas de uma mensagenzinha, mesmo que sem graça, em uma garrafa atirada nos mares da internet.

A moça tenta um contato de terceiro grau. Nada. A moça, amigo, vos digo, não é uma desesperada que viu no encontro uma cena de matrimônio. Ao contrário. Estava na dela, tipo ele fala em casamento… ela toma uma coca zero. Nem aí mesmo.

Só fica puta da vida porque o miserável das costas ocas, o malassombro, não é claro no seu sumiço. Havia até falado em ver “O grande hotel Budapeste”, o filme, com a nega. Sem se falar em outras fofuras futuras etc.

Aí chegamos ao ponto, colega. Os fofos são os piores nesse aspecto. Só os fofos pulverizam o ambiente com o bom-ar das falsas promessas. Os fofos sentem a extrema necessidade de continuarem fofos. Amam ser elogiados pela utópica fofolândia que carregam no mapa imaginário de bolso.

Não vivem sem isso. São escravos da fofura ou da falsa e viciante fofura.

O cafajeste até deixa um certo suspense, afinal de contas sabe que o encontro de um homem e uma mulher é e sempre será dirigido pelo cineasta Hitchcock, mas o cafa não engana com os signos da fofice de um possível namoro. Todo cafa é apenas um budista -sem templo- que vive o momento amoroso.

O perigo, nesse sentido, amiga, vem do fofo. O que apenas prova que o contrário da cafajestice não é a fofura. O bom homem é, digamos assim, o homem normal, o homem da agricultura, da pecuária, o vaqueiro, o suburbano sem os arrotos do canalha-bouquet dos vinhos finos –mas aí já seria outra crônica.

O fofo pode ser sim um perigo. Sendo indie ou não.

O fofo sofre de um certo don-juanismo, a doença da conquista pelos bons modos e a boa impressão que causa. Aquele que faz a moça ligar para a amiga no dia seguinte e dizer, na euforia, “bicha, num acredito, o que é esse homem, tão sensível, curte literatura, ama o Morrissey…”

O fofo tem sangue frio na sua arquitetura da decepção. O fofo constrói todo um repertório de coincidência de meus livros, meus discos, minhas bandas etc.

Sumir todo mundo some, homem, mulher etc, mas na equação entre promessa e fuga ninguém supera a covardia –sentimental ou sexual- de um um homem dito fofo.

Na intimidade do 1º casal do mundo

Por Xico Sá
15/07/14 01:16

ADaoEva

Adiós, Copa. Hora de voltar ao nosso assunto predileto: o amor e suas loucuras. E nada melhor do que voltar lá na origem da confusão toda. Falo de Adão e Eva.

Voltar à primeira segunda-feira em que o primeiro homem percebeu a existência da futura amada, cria da sua bíblica costela:

“Esta nova criatura de cabelos longos está sempre no meu caminho e me seguindo para cima e para baixo. Não gosto disso, não estou acostumado a ter companhia. Preferiria que ficasse com os outros animais…”

Um começo nada promissor para a humanidade, não é mesmo? Mas ponha-se no lugar do velho e bom Adão. Não deve ter sido nada fácil o começo da convivência. Se hoje ainda não é moleza, imagina ser surpreendido com uma nova criatura ao seu lado. Assim do nada, no meio daquele matagal todo.

“Hoje está mudando e o vento sopra do leste; acho que nós vamos ter chuva… Nós? De onde tirei essa palavra? Ah, me lembro agora, é a nova criatura que usa”, prossegue Adão, o macho inicial, portanto, o primeiro machista.

A minha fonte seguríssima são os “Diários de Adão e Eva” (ed. Hedra), de Mark Twain, a pena mais rápida e ferina do oeste, traduzido por Hanna Betina Gotz e Sergio Romanelli.

Vivia procurando um livro mais engraçado que “Dicas Úteis para uma Vida Fútil – Um Manual para a Maldita Raça Humana” (ed. Relume Dumará). Encontrei. Coincidência: é do mesmo gênio americano da sátira.

O homem do terno branco viveu entre 1835 e 1910. O cotidiano de Adão e Eva, porém, imita, nesse incrível drama da convivência, qualquer casal moderno de hoje. A essência está lá.

“Domingo. Aguentei firme. Este dia está ficando cada vez mais difícil. Foi escolhido, em novembro passado, para ser o dia de descanso. Eu já tinha seis desses dias por semana. Esta manhã, encontrei a nova criatura tentando apanhar maçãs da árvore proibida”.

Assim seguem os fragmentos do diário do primeiro macho sobre a terra. Mais adiante, é hora de Eva relatar a sua experiência sobre a convivência:

“Ele fala bem pouco. Talvez seja porque não é muito inteligente e, como é muito sensível em relação a isso, tenta disfarçar”, escreve a fêmea.

Lá para as tantas, Eva tem a sua decepção inaugural:

“Quinta-feira. Minha primeira mágoa. Ontem ele me evitou e pareceu querer que eu não falasse mais com ele. Não pude acreditar.”

Nada que não seja igualzinho à vida de qualquer casal do ano da graça de 2014. A diferença é que hoje, caro Michel Laub, a maçã é mais envenenada.

Tristeza agora tem fim: 2014 está longe de ser 1950

Por Xico Sá
09/07/14 02:31

 

mineiron

Só me resta, para começo de conversa, ser duplamente socrático nesta madruga insone.

Só sei que nada sei, me sopra o Sócrates grego, diante da nossa incapacidade de explicar as coisas pelo futebolês -3×1, vá lá, 7 não se explica nem pela teoria mais decadentista da crise técnica e administrativa do futiba canarinho.

Há tempos o que vemos em campo não representa a brasilidade, arrisca, aqui no meu ouvido esquerdo, de novo, o Sócrates paraense da Democracia Corinthiana. O mais do mesmo que ele mesmo sabiamente nos dizia desde o “Cartão Verde” da Cultura, talvez o melhor e mais reflexivo programa de esportes da tv brasileira há séculos.

Nossas várzeas têm mais flores e cada dia menos meias armadores, repetia este poeta em coro, na noite da Pauliceia, como o mesmo inigualável doutor Sócrates. Ouviram do Ipiranga e da Vila Madalena certamente.

Só me resta agora convocar o Freud de botequim para este nosso banquete platônico: os meninos represaram as lágrimas que ainda haviam para chorar, toda uma Iguaçu, uma Sete Quedas… Não se reprima, não se reprima… Na hora do jogo valeu a trava, a merda, o enfezamento do inconsciente coletivo.

Sim, quero que o Marin, esse capacho da Ditadura, vá para o inferno com toda a cúpula da CBF, afinal de contas foi o cartola mesmo que previu a sua descida aos porões dantescos caso não ganhasse a Copa.

Vade retro, Satanás de rabo, mas os desmandos da Casa Bandida do Futebol, como o Juca diz a sigla, também não explicam a tragédia. Longe disso. A seleção já foi campeã mais de uma vez com coisa ruim ou pior à sua frente. Nem a podridão explica, caro Sigmund.

Recorro também aos pranchetinhas, os entendidos –mesmo- de futebol da nossa crônica. Gastaram todo o estoque de teorias. Concordo com quase todos. Desde a preparação responsável e demorada –seis anos, no mínimo- do exército alemão para tentar ganhar uma Copa. Estão chegando lá, bora ver no domingo.

Mesmo o pranchetinha mais entendido e apocalíptico, porém, reconhece que de sete seria impensável, improvável etc. Sete não passaria da conta do mentiroso.

(Só não invoco o tio Nelson, coitado, cujas frases foram usadas e abusadas até por patrióticas multinacionais de celulares. Deixa o tio Nelson descansar em paz a sua ressaca mais cívica).

Deu vontade de chamar o Graciliano Ramos, gênio da escrita russo-nordestina, mas seria tarde demais. Queira ou não queira já somos pentas isolados pelo menos até a próxima Copa –o velho Graça previu que o futebol, invenção dos ingleses, não daria certo por estas plagas.

Deu vontade até de pegar o mesmo poema do Walt Whtiman que o Geneton Moraes Neto usou no seu documentário “Dossiê 50: comício a favor dos náufragos”.

“Vivas àqueles que levaram a pior!/ E àqueles cujos navios de guerra/afundaram no mar!”

A derrota, porém, ainda está com tintas muito frescas para fazer merecer tal conforto poético.

É preciso ruminá-la, gastar esse fracasso por muitos anos, embora, ao contrário da geração do Maracanazzo, hoje tudo se apague na velocidade de um post polêmico no Facebook ou de um cafuné de Rivotril -aqui não julgo o conforto desse e de outros tantos colos químicos, longe de mim, seu Serafim.

Nem se quiséssemos, por enviesado orgulho de testemunha ocular da história, 2014 seria igual a 1950. Não é mesmo.  Nossa dor não é maior mesmo, sinto muito. Never more. Por mais que insista um cronista anacrônico como este que vos chora as pitangas na madruga. Nada mais verdadeiro, sempre, do que a ideia de que os tempos são outros.

Era um retrato na parede, Carlos, e como doía… É apenas um arquivo de selfies e como dói bem menos, digo, como passará bem mais rápido.

Para o bem ou para o mal -mais para o bem, creio eu- não se chora tão intensamente e por tanto tempo como antigamente. Nem no amor e muito menos no futebol.

Copa: Bombril na antena da memória

Por Xico Sá
08/07/14 14:53

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Uma multidão na praça da cidade de Nova Olinda, diante de uma pequena TV em preto e branco de 14 polegadas –se muito. Raro aparelho naquele pedaço do Cariri cearense. Só chuvisco. Os radinhos de pilha ajudavam a tentar entender aquela miragem no meio do deserto semiárido. Era a Copa de 1970 que nos chegava com muito Bombril na antena no tempo de um Brasil a válvulas.

Com oito anos incompletos, só fui entender direito o que se passava meses depois, pelas figurinhas do chicletes Adams que reproduziam, em um desenho lógico e didático, todos os gols brasileiros. O que mais me impressionou foi a fisionomia assombrada do goleiro da Inglaterra, Gordon Banks, diante do tirambaço à queima-roupa de Jairzinho. Parecia a imagem do “Pânico” do pintor Edvard Munch.

Saía de caminhão, com a família e a turma do Sítio das Cobras, zona rural de Santana do Cariri (CE), para Nova Olinda, a 18 km do nosso rancho. Com aquela festa toda da meninada, quem precisava ver o jogo direito? Só fui conhecer, à vera, a cara de cada jogador brasileiro uns dois meses depois, quando o revendedor dos cigarros da Souza Cruz levou de brinde um pôster para meu pai colar na parede da sua bodega.

Onze homens e um destino. Ficava horas observando os jogadores. Para cada um, eu via um sósia ali na nossa vizinhança. Tostão era o Gerdau Barbosa, que encantava a todos com os perfumezinhos que fabricava em pleno sertão –havia feito um curso em São Paulo. Daudete, irmão de Gerdau, era o Félix –até jogar de goleiro, jogava.

Pelé era Corisco, um vendedor de laranjas da Bahia na vila de Aratamas, Assaré (CE). Gérson eram todos os carecas da região. Carlos Alberto Torres era o meu tio xará Alberto Novais. Everaldo era Expedito, meu grande amigo de infância, hoje funcionário da gráfica da editora Abril em São Paulo. Clodoaldo era o Roseno, vizinho de Corisco, santista e bom de bola, pelo que me recordo.

Rivellino era Chiquinho Inglês, bigode grosso do Açude da Telha. Jair eram quase todos da família Bruno…

Uma Copa em que o entorno, a brincadeira, a fantasia, o não-ver o jogo foi mais importante que tudo. Essa herança está no tipo de crônica esportiva que pratico. Mais vale a passionalidade, o exagero e a imaginação do que o esquema tático –tentei escapar de dizer que essa religião tem nome e se chama rodriguianismo doentio.

Naquela tevezinha caixa de fósforo no meio da praça, creio que obra do prefeito Jeremias Pereira (Arena I), não vi o melhor de Pelé: os não-gols que marcariam a presença real no México.

Os não-gols mais bonitos que 90% dos tentos marcados de lá até hoje. O goleiro tcheco adiantado…

Por pouco, pouco, muito pouco, pouco mesmo, como diria o narrador esportivo Geraldo José de Almeida àquela época. O drible de beleza platônica, sem nem triscar na bola, no goleiro uruguaio Mazurkiewicz –minha nossa Senhora de Guadalupe, aquilo valeu por um Maracanazo.

E a defesa do Banks, na cabeçada do negão? Essa não decifrei no chuvisco da TV, mas as rádios repetiram tanto a locução que sonhei lá na minha rede colorida no quarto atrás da bodega do meu velho pai Francisco. Quando vi o videoteipe… Era igualzinho.

“A Copa do Mundo é nossa, com brasileiro não há quem possa.” A canção ficou grudada até hoje.
Essa outra também: “Noventa milhões em ação, pra frente Brasil…” Os milicos arrepiavam nos porões da tortura, e eu –inocente, puro e besta, matuto sertanejo– só achava engraçado e bonito o sotaque gaúcho do ditador Emílio Garrastazu Médici. O sotaque do ditador no rádio.

Minha avó Merandolina, de Águas Belas (PE), descendente dos índios fulniôs, dizia: “O homem vai falar, meu netinho”. Pura fábula dos tempos de chumbo.

A minha Copa é a Copa que mal vi, a Copa dos não-gols do Pelé, mas minha primeira ideia de futebol como festa e congraçamento. Lá em Nova Olinda estava o mundo todo dos nossos arredores. Era tanta gente para uma tevezinha tão minúscula e chuviscada. Bastava dizer Pelé para ganhar um sorriso –como acontece com um brasileiro perdido no deserto das Arábias ou em uma savana africana. Como esquecer?

Inocentemente, eu era um dos 90 milhões em ação, como na música da trilha sonora, e nem sabia.

10 lições da Copa para o amor e o sexo

Por Xico Sá
30/06/14 01:17

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O amor não é apenas lindo, o amor decide o jogo. Repare ai em uma das melhores imagens da  fofolândia da Copa: o craque alemão de nome impronunciável correndo para a o encontro da namorada Sarah, na arquibancada da Arena Pernambuco. Tanto amor assim só poderia ser no lugar mais romântico do Brasil: Saint-Laurent de la Forêt (pronuncia-se com biquinho sexy), no Grande Recife.

O futebol é mesmo, amigo, metáfora para tudo. Não à toa, o escritor, filósofo e goleiro Albert Camus, nascido na Argélia que vai zebrar hoje a Alemanha, dizia: tudo que aprendi sobre moral foi com o jogo de bola.

Sobre amor e sexo os episódios copeiros têm muito o que nos ensinar também:

1) Ser um MacunaEmo, como diria meu amigo Ortinho, não é uma boa nem no futebol muito menos no relacionamento. Macunaemo vem a ser aquele cara que tem a preguiça do Macunaíma (vide o livro de Mário de Andrade) e o chororô de um roqueiro Emo, como têm sido os meninos da Seleção Brasileira. Essa combinação não funciona em campo e muito menos na cama.

2) Um anti-herói, como o homem feio, por exemplo, sabe tirar proveito do fato de não ter a obrigação do triunfo. Repare no caso da Costa Rica, tranquila até na hora de cobrar pênaltis. A desobrigação da vitória é o segredo. Ter a consciência daquilo que dizia o cantor e compositor francês Sérge Gainsbourg: a feiura tem uma grande vantagem sobre a beleza. A feiura é para sempre. A beleza é passageira.

3) Vida experimental, arte experimental. Você tem que ser dentro de campo ou no relacionamento como é lá fora. Vide o caso dos holandeses. Não têm essa prisão toda das concentrações, vivem normalmente durante a Copa, com direito a animadas rodinhas no liberadíssimo posto 9 em Ipanema.

4) Sem dentada não há amor, como dizia o tio Nelson. Em campo, porém, configura uma quebra no código do faroeste e das brigas dos machos, como acertou magistralmente o Marcos Augusto Gonçalves. Daí o espanto diante da atitude do uruguaio Luisito Suarez. Em suma, você, caro amante, não pode ir metendo os caninos canibalísticos dos índios caetés em qualquer um(a). Tem que ir experimentando de leve, pra sentir se o outro(a) aprecia uma mordida gostosa de amor.

5) Não faça cera com a moça ou moço. Você pode pagar o preço que os dramáticos mexicanos pagaram com a Holanda. Se não quer, não enrola, ora bolas.

6) Comer quieto ainda é a grande lição no bacanal da existência. Mire-se no exemplo dos colombianos.

7) No sexo, nem sempre os bambuais do kamasutra e outros malabarismos são sinônimos de eficiência. Veja como joga o Messi. Direto, reto, com beleza mas sem muito enfeite.

8) Fama de comedor ou de devoradora não leva ninguém obrigatoriamente à glória. É só reparar no destino dos canastrões italianos. Não foram além da ejaculação precoce.

9) Hotel, lua de mel, sarapatel é sim em Salvador, caro Chico. A Bahia é a terra dos recordes de gols, o orgasmo do futebol. Dê uma inovada, leve sua mina ou o seu rapaz para uns inspiradores beijos de língua no fértil Dique do Tororó e alhures.

10) Segundo as denúncias das senhores e senhores de Santana, a vila Madalena, bairro boêmio de SP, virou Sodoma & Gomorra. Tem droga e até sexo na rua, reza a cartilha careta. Imagina em Copacabana, ai de mim Copacabana.

P.S. E como diz uma amiga chateada com o chove-não-molha de um mancebo aqui do Bairro Peixoto, menos tic-tac (o estilo de toquinhos na bola do futebol espanhol) e mais penetrações no jogo, minha gente.

O segredo das lágrimas de macho

Por Xico Sá
25/06/14 03:26

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(Ou Ninguém desaba apenas pelo hino a capela.)

Homem que é homem não chora. Ouvimos essa ladainha desde que nos esbarramos com o azulzão do desamparo que é soltar do útero para a vida.

Homem que é homem chora sim, embora sempre chore atrasado e invente uma desculpa, como o futebol, por exemplo, para chorar pitangas mofadas.

Um jogador brasileiro no momento do hino, por exemplo, está derramando lágrimas que deveriam ter irrigado a várzea, o bairro, os seus primeiros passos, a sua vida fora dos campos.

Os homens, com ou sem bola, lacrimejam…

Pausa para ouvir o vinilzão de “Boys Don’t Cry”, aí acima. Pedagogia pré-emo do solene e genial conjunto musical “The Cure”.

Homem que é homem chora deslocado do real motivo das lágrimas. Ou você acredita que aquele choro todo é por causa do “ouviram do Ipiranga”?

Sinto muito em dizer, homem que é homem sempre foi obrigado a congelar suas lágrimas. E assim rolam as pedras de gelo dos seus futuros uiscões.

Nascemos já ouvindo essa miserável e pobre sentença.

Meninos não.

Pense na responsa. Pense no erro como um monstro.

O choro contido, preso nas algemas arbitrárias do soluço –ou seria preso no maldito alçapão do superego de infalível atleta?

Pense na nuvem em tecla “rew” recolhendo a chuva que se anunciava um drama bíblico. A nuvem que se arrepende de molhar o mundo.

Agora repare comigo no choro sincero dos boleiros da Copa. Hoje vi até um uruguaio derramando lágrimas que fariam do rio da Prata um dilúvio dos Sem-Noé.

Só creio no homem que experimenta, nem que seja por 15 segundos, o desamparo. Aquele choro  de morte.

O certo, amigo que chora com dificuldade, é que nunca vi tanto homem chorar junto como nesta Copa das Copas.

Que bonito é.

O hino a capela, o palo seco da canção patriota…

Até o mais burro dos mendigos de Viena, terra do Freud, sabe que o marmanjo não está chorando somente por causa do lábaro que ostentas estrelado. Ouviram do Ipiranga ou do Cais de Estelita que o choro, mesmo o choro do macho mais empedernido, é um Capibaribe que se junta ao Beberibe para formar um oceano Atlântico.

Os homens carecem apenas de uma desculpa cívica, de uma festa em família ou um porre maluco para liberar o choro preso por motivos bem mais nobres.

Quando Neymar desaba, quando Marcelo idem, quando até os nossos aparentemente viris zagueiros irrigam o gramado do Itaquerão e do Castelão com as suas lágrimas, algo mais forte terá rompido as paredes de todos açudes, todas as barragens apocaplíticas, todas as Tapacurás e seus boatos de inundação do Recife.

Como se rompesse um Orós em cada olho, como se aqueles meninos descobrissem o choro que vem do berço e irrompe neles de novo, aí incluindo o mal-estar da obrigação da vitória, os erros com mães/mulheres, as cobranças, a agonia de simplesmente existir e estar inteiro apesar de tudo.

Viver da forma mais besta e masculina é represar o choro.

Sábado eles irrigarão de novo, com lágrimas aparentemente patrióticas, o gramado do Mineirão. Por trás dos choros patrióticos ninguém jamais saberá os reais motivos, e isso é lindo, os homens choram pelas não-cachoeiras do passado.

Digo tudo isso e repito alguma coisa que disse em uma velha crônica:

Eis mais uma, entre as tantas, vantagens das fêmeas sobre os marmanjos: a coragem, o destemor, a arte de chorar em público.

Se o choro vem, as mulheres não congelam as lágrimas, como os moços, esses moços, pobres moços…

Não guardam as lágrimas para depois, como nós, que sempre adiamos as cachoeiras interiores, não levam as lágrimas para derramar escondidos na alcova.

Pior ainda é o homem que não chora nunca. Além de fazer mal ao coração, esse tipo não merece muita confiança.

As mulheres não, falo da maioria das fêmeas, desabam em qualquer canto e hora. Se estão mal de amor, choram na firma, no escritório mesmo, na fábrica, choram no trânsito, choram no metrô, simplesmente desabam.

Como invejo as lágrimas sinceras das moças.

Quantas vezes a gente não se preserva, por fraqueza, enquanto as lágrimas, em queda d´água, batem forte no peito machista e viram apenas pedras do gelo do uísque.

Como invejo as mulheres que misturam sim o trabalho com o drama furioso da existência.

Desconfio da frieza profissional, das icebergs de tailleur, que imitam os piores homens e guardam tudo para molhar o travesseiro solitário numa noite de inverno.

Ora, as mulheres podem ser infinitamente poderosas, administrarem plataformas de petróleo nos mares e chorarem um atlântico diante de uma indelicadeza da vida.

Lindas e comoventes as mulheres que choram em público, nas ruas, nos cafés, nos bares, nos restaurantes, no táxi. São antes de tudo umas fortes. Tristes dos que estranham ou ficam envergonhados com o mais verdadeiro dos choros.

Triste dos que acham que não levam a sério, que tratam como sintomas da TPM e chiliques do gênero, que fracasso. Ora, até mesmo os choros de varejo, não importam as causas, são comoventes. Chorar engrandece.

Fazer amor depois de lágrimas, então, é sentir o sal da existência, romanticamente, sem medo de ser ridículo ou cafona.

Acabei de testemunhar uma dessas lindas e corajosas moças, chorava no metrô da avenida Paulista.

Por que chorava aquela moça?

A moça não escondia os soluços do choro. Terá discutido a relação, a velha D.R., à boca da estação Paraíso? Veste roupa de trabalho sério, e chora.

Daqui a pouco estará sentada na sua cadeira de secretária, exímia, bilíngüe, a serviço da grana “que ergue e destrói coisas belas”.

Teria levado um pé-na-bunda, um fora? Teria visto o casamento pelo binóculo do titio Nelson Rodrigues? Perdoa-me por me traíres?

A moça que chorava sabia que o amor -repito o que já disse mil vezes no blog- é como o metrô na avenida Paulista: começa no Paraíso e termina na Consolação.

Pior sempre será o homem. De tanto esconder o jogo, jamais saberá o real motivo do choro. Nem Neymar nem ninguém chora apenas pelo hino.

Amar é tirar uma sesta imoral e imodesta

Por Xico Sá
22/06/14 06:41

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Minha ideia de amor é a mesma ideia de uma bela sesta ou siesta.

Depois daquele almoço gostoso ou do almoço possível, seja com requinte ou aquele mexidinho do free-jazz mineiro com as sobras completas, como o arroz-de-puta, as sobras de todas as geladeiras, seja como for, uma refeição decente, uma delicadeza quentinha para o estambo, estômago, haja conforto, não há pobreza em minha alma que resista ao air-bag da plenitude gástrica –dessas coisas elaboradas que um matuto do Crato aprende com a sabedoria lacaniana.

Corta.

Minha ideia de amor e revolução é a ideia de nouvelle vague de siesta. Aquela refeição, um barulho da metrópole ou uma elipse da mesma dita cuja, uma tarde na Várzea, Recife, Pernambuco, só nos dois e as obras completas jiboiando sem necessidade de citações ou rodapés para as teses da UFPE, pronto.

Minha ideia de amor é…

O que fizemos de nós dois analfabetos completos de nosotros?

Amor é Mobral.

Amor é nunca saber nada, naenderthal.

Corta para sinais primitivos nas grutas de nós dois.

Só a siesta salva a ignorância amorosa.

Siesta é mãe, viagem amorosa, fragmentos do discurso amoroso, rapay.

Na capacidade de dormir 30 minutos depois das refeições está a ideia de cinema, de sonhar como em um filme de Buñuel, o único cara que interessa a essa altura.

Buñuel é cinema de siesta, compay, todo mundo sabe mas nem todo mundo diz.

A mesma ideia de suspeitas masturbações sem imagens óbvias. Amar é inventar um enredo mínimo para as próximas acontecências na cama.

Minha ideia de siesta, e tirar uma siesta é mais revolucionário que o mais menino dos black blocks, é a ideia de uma siesta que mate o capitalismo pelo menos meia hora por dia, ora ora.

Engana-se quem acha que combate o capitalismo com o mesmo enfrentamento burro dele –AH O TRABALHO IDIOTA!!!

Todo trabalho é alienação em estado bruto.

Só o sonho vago, que não serve sequer para uma sessão de análise, mata o capital do nosso juízo.

Só o sonho vago da prole, o jogo do bicho como morte de Freud, como sonhar e jogar no cachorro na dezena 17, ora porra, independentemente dos falso enevoados.

Não há revolução no trabalho. Engana-se. Além de levar as bordoadas de quem é pago pelo Estado e pelo Capital pra bater sem dó nem piedade.

Só a vagabundagem das intermináveis siestas embute a contradição do capital babaca.

A revolução é não se entregar ao trabalho, ou você acha que tem diferença de ser escravo da imprensa burguesa ou da imprensa independente, mesmo morrendo de fome? Quem vai pagar a conta?

Mudando de assunto sem mudar de tema. Quando um black bloc quebra uma vitrine de luxo está apenas comungando do mesmo fetiche burguês. O papai também ama aquele Hyundai, se é que você me entende na psicanálise mais rastejante do meu mundo tatu-peba.

No que vos digo, como naquela velha crônica paleolítica:

Como é bom tirar uma sesta, abaixar a cortina e dar um risinho safado para o capital que se esborracha lá fora; como é bom, mesmo para um falido, ajeitar os travesseiros –de palha ou de pena de ganso- e cerrar os olhos para sonhos pequenos.

Uma sesta à sombra da toda-poderosa Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a Fiesp, aqui perto do meu esconderijo; uma sesta com as janelas abertas na rua da Aurora, a rua mais linda do mundo, de onde avista-se Beberibes, Capibaribes, Áfricas, Tongas e Polinésias…

A minha sesta ibérica, como na origem do costume, lá no Juazeiro e Crato. Como é bom tirar uma sesta com uma nega enroscada aos pés, sono leve de conchinha, colherzinha e quetais. Mas os dois precisam estar no espírito da sesta. Uma alma em desassosego acaba com qualquer sesta, sesta-de-favor não vale, sesta, siesta, carece de savoir faire… Um gato ali pelas nossas costelas –opa!, um felino de carne e osso, um bichano- que delícia.

Numa sesta não vale sonhos épicos, apenas sonhos pequenos, daqueles que a gente realiza num piscar de olhos. Ou simplesmente deixa para lá. Ridículo correr desembestadamente atrás de sonhos. Sonhos são filmes grátis, que vemos deitadinhos, sem o barulho ridículo de pipoca ou de gente.

“Ei, morena linda que passa, vamos ao cinema?” Ai trago ela para a sesta. Cinema é travesseiro e pezinho colado.

Os sonhos são feitos pelos cineastas mortos, jeito de ocupar-lhes no purgatório. Coisa da aliança espúria de Deus e do Diabo.

Sesta: modo de usar. Quanto dura uma sesta? O ideal é que não se faça o uso do despertador, que não seja um curta-metragem, que seja um filme que se durma nele inteirinho, que se beije o olho de quem dormir primeiro, como sempre guardo as minhas mulheres, até com uma rezinha baixinho para nunca acorda-las e sempre protege-las, ô Deus guarde essa costela colada à minha e que esse suorzinho seja o superbonder possível, a resina mais grudenta, que nos livre do fim, amém. Mas o amor acaba, meu filho, sopra um anjo pousado no ombro de Paulo Mendes Campos, que me diz baixinho, sossega, menino, esse coração.

A sesta com a bênção das mulheres e da minha mãe. “Meu filho, durma pelo menos uma meia horinha depois do almoço”. Minha mãe chorava, no dia em que fui embora, mas nada dizia além da receita da sesta. Mulher de coragem: deixar aquele graveto, só o couro e o osso, ganhar a estrada apenas com uma rede que ela botou no fundo da mala…

Como eu queria achar de novo essa rede e tirar a maior das sestas, mas troquei por alguma coisa, vício, comida, sei lá, entre uns desalmados de um cortiço do Recife, num sótão ali na Barão de São Borja. Até quando a usei, era uma rede que balançava lágrimas e meus chinelos sempre acordavam boiando de manhã.

Amor & sexo em tempos de Copa

Por Xico Sá
18/06/14 20:34

onde-esta-o-wally

Na festa da Copa, o “a gente se vê”, tema recorrente aqui neste blog, se torna mais grave ainda.

A fuzarca ludo-etílica pode até estimular novos possíveis casais, promover bons encontros, flertes, namoricos, rapidinhas…

Sem se falar nas ficâncias globalizadas em geral –os argentinos e holandeses, por exemplo, estão em alta com as gazelas na cidade do Rio de Janeiro no momento.

O xodó de Copa, nacional ou estrangeiro, é o maior festival de “a gente se vê”de todos os tempos.

Nada fica, nem o amor daquela rima antiga.

Fica tudo na base do “a gente se vê”… E adeus!

Não que fosse acontecer um casamento ou algo do gênero a partir daquele encontro, nada disso, mas foram encontros bonitos, fortes, que se acabam ali mesmo, na poeira da estrada, numa tarde fria, em um café da manhã, numa simples despedida.

Óbvio que o mês da Copa só amplia um sintoma moderno da época.

Homens e mulheres vivem hoje a arte do desencontro, com ou sem a festa futebolística.

“A gente se vê.” Pronto, eis a senha para o terror, o “never more”, o nunca mais do corvo do escritor Edgar A. Poe.

A gente se vê. Corta para uma multidão na avenida Atlântica, ai de mim Copacabana.

A gente se vê, corta para uma manifestação na avenida Paulista, com ou sem vândalos, com caras limpas ou mascarados, mas sempre com o gás lacrimogêneo para aumentar o chororô do cronista.

A gente se vê. Corta para uma saída de Castelão ou Mineirão lotadose.

A gente se vê. Corta para “onde está Wally”.

De um casinho de Copa, tudo bem, acontece, faz parte do jogo.

Na normalidade dos dias, porém, nada mais detestável de ouvir do que essa maldita frase. Logo depois a porta bate e nem por milagre.

Jovens mancebos, evitem essa sentença mais sem graça. Raparigas em flor, esqueçam, esqueçam.

Melhor dizer logo que vai comprar cigarro, o velho king size filtro do abandono. Melhor dizer que vai pra nunca mais. Melhor o silêncio, o telefone na caixa postal, o telefone desligado, o desprezo propriamente dito, o desprezo on the rock´s.

A gente se vê uma ova. Seja homem, troque de palavras, use o código do bom-tom e da decência. A gente se vê é a mãe, ora, ora.

Como canta o Rei, use a inteligência uma vez só, quantos idiotas vivem só…

Esse “a gente se vê” deveria ser proibido por lei. Constar nos artigos constitucionais, ser crime inafiançável no Código Penal. Alô STF, homens de toga, ponham na pauta.

A gente se vê é pior do que a gente se esbarra por ai. Pior do que deixar ao acaso, que jamais abolirá a saudade, que vira uma questão de azar e sorte.

Melhor dizer logo “foi bom, meu bem, mas não te quero mais”. YO NO TE QUIERO MAS, como na camiseta mexicana que ganhei de una hermosa chica. Dizer foi bom meu bem e pronto, ficamos por aqui, assim é a vida, sempre mais para curta do que longa-metragem.

A gente se vê é a bobeira-mor dos tempos do amor líquido e do sexo sem compromisso. A gente se vê é a vovozinha, ora!

Seja homem, seja mulher, diga na lata.

Não engane a moça, que a moça é fino trato, que não merece desdém.

A fila anda, jogue limpo.

A gente se vê. Corta para uma multidão no show do Morumbi. A gente se vê. A gente se vê. Corta para a multidão no Campo de Marte. A gente se vê. Corta para o formigueiro do Maracanã. A gente se vê. Corta para a São João com a Ipiranga. A gente se vê. Corta para um engarrafamento gigante na marginal do Tietê…

A gente se vê. Então aproveita e vai olhar se eu estou na esquina!

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