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Xico Sá

Modos de macho, modinhas de fêmea & outros chabadabadás

Perfil Xico Sá é escritor, jornalista e colunista da Folha

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É na turbulência que sabemos quem amamos

Ou Isso não é uma metáfora, não é uma metáfora, não é uma metáfora. Macho-jurubeba diz na lata. Mas vamos ao que interessa:

Foi por medo de avião que ela segurou pela primeira vez na minha mão, turbulência na viagem Porto Alegre/SP, um beijo depois no céu de brigadeiro, inesquecíveis olhos atlânticos da repórter-fotográfica…

As turbulências podem nos render um amor fugaz. Este que retrato aí acima até durou algum tempinho em terra firme. Acabou, chorare.

Normalmente as turbulências são apenas turbulências mesmo, como diz hoje no caderno de “Turismo” da Folha um acaciano comandante da Gol. A matéria trata de como perder o medo de avião, recomendo a leitura. Leia aqui.

Já senti algum medinho, principalmente naqueles vôos em aviões teco-tecos de garimpo sobrevoando a floresta amazônica. Hoje os sacolejos da aeronave me dizem coisas. As turbulências hierarquizam os meus sentimentos.

Complicado? Explico. É na hora do sacode nas nuvens que a gente sabe quem ama de verdade. Pelo menos quem a gente ama naquele momento da vida. É batata. Teste você mesmo.

A aeronave chacoalha, a aeromoça aflita pede calma, como na canção do Chico, e você pensa apenas nele(a).

Óbvio que o edipianismo grita nessa hora. Nego pensa muito na sagrada mãezinha querida. As mães, óbvio, pensam nos filhos.

Noves fora essa ciranda familiar, você pensa no amor, digo o amor na sua versão mais erótica e menos sagrada.

Se estamos na dúvida, naqueles momentos em que vivemos várias histórias paralelas, a turbulência decide: é ele, é ela!

O até então obscuro objeto de desejo ganha alta definição na sua cabeça. Você é capaz de ver o rosto dele(a) no turbilhão das nuvens.

Há quem pense em um amor incurável pelo(a) ex.

Há de tudo.

Eu acredito nas turbulências de uma forma mística. Ontem mesmo, em um vôo Rio/Curitiba, uma falsa-magra do Catete me surgiu do nada a dez mil pés.

Bom vôo, sempre, mas se tremer o asa-dura, como os sertanejos chamam aviões, tire todas as dúvidas sobre o seu amor de verdade.

P.S. Sim, amigo, você acertou: a foto do post é da Sylvia Kristel, La Emmanuelle, na primeira cena de sexo a jato do cinema.

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Os 12 maiores bregas da música brasileira

Em um encontro no final de semana, aqui em SP, para um evento do Sesc Santo Amaro, tive a felicidade de dividir a mesa do botequim sentimental com o historiador Paulo César de Araujo (“Eu não sou cachorro não”), Fausto Fawcett (o homem de Kátia Flávia e Favelost) e o joiadíssimo Falcão (“I’m not dog no”).

O papo era sobre a música cafona, romântica ou brega. Brega, defendeu Araújo, como substantivo, não adjetivo. Falou e disse tudo o baiano censurado pelo Rei –a sua biografia “Roberto Carlos em detalhes” foi retirada das livrarias.

No que Fawcett lembrou da genialidade de Evaldo Braga (“Sorria, meu bem”), pioneiro ao incorporar “black music” ao breguismo, cantor fluminense morto ainda em 1973, aos 27 anos. Daí viajamos a respeito de outros astros do gênero.

Aquela conversa me levou a uma lista dos “12 mais do brega”, um LP completo da nossa canção romântica. Os fundamentais, digamos assim. Fazer lista é cometer injustiças. Arrisco:

Ih, de cara aponto as falhas imperdoáveis: Fernando Mendes, Wanderley Cardoso, Sidney Magal, Bartô Galeno, Genival Santos, Raimundo Soldado, Maurício Reis, Adelino Nascimento… E como pude deixar de fora o Amado Batista, madre de Diós? Agora cabe a você, amigo, reparar as injustiças.

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Como perder a frescura e virar um escritor

Mr. Bradbury e a máquina do tempo

Você curte escrever, tem combustível de sobra, mas o motor-de-arranque ainda teima com a ignição na hora da partida?

Você teme os críticos, mesmo que os da família?

Você é tímido o suficiente para rasgar as suas melhores histórias? Você esconde o jogo?

Você precisa se encorajar com o mestre. Sim, escrever exige risco e coragem.  Corra, pare. Eis a primeira lição do cara.

A lição dos lagartos. Corra, pule, congele.

Se você acha que esse papo-aranha está parecendo xaropice de auto-ajuda, esqueça. A pegada é outra: entusiasmo, prazer, curiosidade.

Com vocês, orgulhosamente, Ray Bradbury, o incendiário mestre de “As crônicas marcianas” e  “Fahrenheit 451” –o livro que deu no filme do Truffaut. Por encomenda do diretor John Huston, fez ainda o roteiro adaptado da saga “Moby Dick”. É o fraco!!!

Curto lê livros sobre técnicas, métodos, manias e até superstições da escrita, como “Segredos da Ficção”, de Raimundo Carrero, e “Cartas a um jovem romancista”, do Mário Vargas Llosa –só para ficar em dois grandes exemplos.

Meu encanto radical da semana, no entanto, é com o velho Ray Bradbury e o seu manual maluco “O zen e a arte da escrita”, lançado no Brasil pela editora Leya.

No livro, RB tira muita onda com essa coisa metida a solene da literatura. Ora, senta essa bunda e escreve!

E o que o zen tem a ver com isso tudo no livro? Não pense que ao ler as dicas do autor de “O vinho da alegria” o amigo atinja o nirvana. O caminho mais curto pode ser o inferno.

Mas não vou contar a razão do zen do título. Estragaria o enigma deste iluminado vagabundo que escreveu mais de 500 histórias em forma de novelas, contos, roteiros etc.

Só sei que você escreverá bem mais fácil depois de ler este livrinho. Bem mais fácil e sofrendo do mesmo jeito. Como Ray recomenda, vá com patas de pantera aonde todas as verdades minadas dormem.

Sim, faça lista de expressões, palavras simples ou estranhas. De cada palavra é possível retirar um conto, no mínimo. A minha palavra do dia é: renegados. Rende um faroeste inteiro do Tarantino.

Ao ler “O zen e a arte da escrita”, preste atenção redobrada no capítulo “Bêbado e no comando de uma bicicleta”.

No mais, sugere o homem das grandes ficções: “Toda manhã, pulo da cama e piso num campo minado. O campo minado sou eu. Depois da explosão, passo o resto do dia juntando os pedaços. Agora é a sua vez. Pule!”

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Foi bonita a Virada, pá, apesar da treta

Foi bonita a festa, pá, fiquei contente. Certo, meu caro George Clinton? Certíssimo. Apesar das correrias e das confusões, SP está aprendendo a fazer farra pública.

Não podemos esquecer que sempre foi uma cidade com vocação para a festa privada, longe das tradições de lugares como Recife/Olinda e Salvador, por exemplo, calejados de tantos carnavais.

O principal problema apontado na Virada Cultural não é exclusividade da festa de rua. Não se esqueça: o arrastão é moda nos restaurantes chiques há várias temporadas.

Foi bonita a festa, pá, apesar do festival de pequenos roubos e furtos, principalmente de celulares. Postar a fotinha no Instagram, então, era um risco altíssimo para as festivas Lolas.

Polícia para quem precisa. Um amigo baiano fez uma ótima observação sobre a ação dos PMs: eles sempre vão embora, em fila, antes do final dos shows. Sim, parece que a polícia de SP não curte mesmo o bis.

Havia também uma conspiração-tequila correndo solta. A PM tucana teria feito corpo mole para prejudicar a virada do prefeito petista. Mais um capítulo da guerrinha entre conservadores de twitter e bolcheviques de facebook ou vice-versa.

Essa crítica parte do pressuposto que a polícia é eficientíssima, nota 10, no dia-a-dia da cidade. Não é isso o que vemos normalmente. Tivemos na Virada a polícia que temos no cotidiano, com o agravante de ter que cuidar de um mar de gente que tomou conta do centro.

Em anos que foi mais enérgica –para usar o eufemismo da tropa- foi bem pior a atuação policial. Lembre-se do tumulto sem precedentes no show dos Racionais em 2007, quando os homens fardados desceram a lenha, indiscriminadamente, nos fãs de Mano Brown. A Sé virou campo de guerra.

SP está aprendendo, aos poucos, a fazer festa de rua. Uma boa medida seria realizar outros eventos menores ao longo do ano, mesmo que implicasse em uma pequena redução no esquema megalô da Virada.

Festa pública só se aprende a fazer na rua, não nos gabinetes. Que venham as viradinhas, vários ensaios para uma Viradona nesta cidade-aprendiz.

Foi bonita a festa, pá, apesar da treta.

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A gente se vê… na multidão da Virada

Isso é que é promessa fajuta.

Pior do que promessa de partido-família cristão.

A pior coisa que um homem pode dizer a uma mulher e vice-versa: A gente se vê.

Um desastre amoroso sem precedente.

A gente se vê.  Pronto, lascou, eis a senha para o nunca mais, o “never more” do corvo do tio Edgar A. Poe.

A gente se vê. Corta para uma multidão do palco principal da Virada Cultural de São Paulo.

A gente se vê. Corta para o palco da praça da República.

A gente se vê. Corta para “onde está Wally”.

Nada mais detestável de ouvir do que essa maldita frase. Logo depois a porta bate e nem por milagre.

Jovens mancebos, evitem essa sentença mais sem graça. Raparigas em flor, esqueçam, esqueçam.

Melhor dizer logo que vai comprar cigarro, o velho king size filtro do abandono. Melhor dizer que vai pra nunca mais. Melhor o silêncio, o telefone na caixa postal, o telefone desligado, o desprezo propriamente dito, o desprezo on the rock´s.

A gente se vê uma ova. Seja homem, torque de palavras, use o código do bom-tom e da decência. A gente se vê é a mãe, ora, ora.

Como canta o Rei, use a inteligência uma vez só.

Esse “a gente se vê” deveria ser proibido por lei. Constar nos artigos constitucionais, ser crime inafiançável no Código Penal.

A gente se vê é pior do que a gente se esbarra por ai. Pior do que deixar ao acaso, que jamais abolirá a saudade, que vira uma questão de azar e sorte.

Melhor dizer logo “foi bom, meu bem, mas não te quero mais”. YO NO TE QUIERO MAS, como na camiseta mexicana que ganhei. Dizer foi bom meu bem e pronto, ficamos por aqui, assim é a vida, sempre mais para curta do que longa-metragem.

A gente se vê é a bobeira-mor dos tempos do amor líquido e do sexo sem compromisso. A gente se vê é a vovozinha da fábula, ora!

Seja homem, diga na lata.

Não engane a moça, que a nega é fino trato, que não merece desdém.

A fila anda, jogue limpo.

A gente se vê. Corta para a entrada do metrô da praça da Sé.  A gente se vê. A gente se vê. Corta parao show dos Racionais MC´s no centrão de SP.

A gente se vê. No próximo Círio de Nazaré. A gente se vê. Corta para a festa do Morro da Conceição. A gente se vê. Corta para o dia de Iemanjá em Salvador. A gente se vê. Corta para o reveillon na praia de Copacabana.

A gente se vê. Então aproveita e vai logo ver se eu estou na esquina da São João com a Ipiranga.

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Na noite com Picanha e Pedro Juan Gutierrez

Lá se foi o amigo Paulo de Tharso, 52, o Picanha (foto), vulgo cuja origem é um personagem do seu livro “O dia de Santa Bárbara”. O Mário Bortolotto foi quem sacou o apelido. Ator, músico, poeta, pisou fundo na vida, viveu na sístole & diástole da respiração do blues.

Descansa em paz, viejo Picanha. Gracias pela antologia de ensinamentos na madruga da Roosevelt, bar Amistosas e arredores. Sem se falar nas traduções simultâneas de canções do Boris Vian (abaixo) e outros desesperos de rotina.

Deixo ai uma crônica em que registro o nosso encontro com o escritor Pedro Juan Gutierrez, naquela noite em que alertaste o cubano sobre os erros de expressões francesas contidas na “Trilogia Suja de Habana”. Eis o relato:

“Se o macho está perdido, amigo, como se apregoa por ai, não sou eu que vou procurá-lo”, bafejou o escriba Marçal Aquino, em animada mesa da nossa taberna lítero-boêmia em São Paulo de Piratininga, a Mercearia São Pedro.

Claro que o chiste do autor de “Faroestes” rendeu e desabou, graças ao abençoado tonel de Salinas, para uma buena onda digna das páginas mais quentes do cubano Pedro Juan Gutiérrez, que também nos dava a honra àquela noite em que até a lua, tão cândida, expelia garoa de testosterona e macheza.

É, amigo, nunca foi tão difícil ser homem, melhor, nunca foi tão difícil ser macho, para usar a acepção mais apropriada. “Os dilemas são muitos e o meio termo corre sempre o risco de ser mal-compreendido”, bradou algo assim um delicado rapaz de boina cujo batismo me fugiu na ressaca.

“Pára com isso, meu caro!”, atalhou o próprio Aquino.

Continuar sendo o velho e irredutível macho-jurubeba, o macho à válvulas, ou ceder às saudáveis tentações dos metrossexuais e outras vãs modernagens?

“Que pasa?”, manifestou-se o Gutiérrez, abusado.

O ideal, para os novos tempos, a voz dos moderados, seria dosar um pouco de macheza à moda antiga com mais cuidado com a aparência, uma guaribada no guarda-roupa, uma cosmética sem exageros… A diplomacia seguiu noite adentro, não me pergunte de que parte dos cavalheiros.

“No pasa nada!”, advertiu o bravo Picanha, messiê Paulo de Tharso, que se estranhara com o cubano em uma treta lá qualquer, ave memória, sobre expressões gaulesas. “O cubano não aguentou a onda, Xico, não entendeu a sacanagem, vou deixar esse cabrón maluco!”.

O debate-macho prosseguiu. Nada de ostentar uma bancada de creminhos maior do que a da patroa. “Prefiro não! Assim não dá, camaradas, elas odeiam esse tipo de concorrência”, esperneou Reinaldo Moraes, o Reinaldão do clássico “Pornopopeia”.

“Ah, minha gente, um Lancomezinho não tira pedaço”, provocou Marcelino Freire.

“Pelas barbas do profeta”, disse Terron.

“Marquinhos, uma Germana!”, foi tudo que tinha a dizer sobre o assunto o Bressane.

“Ah, eu amo homem cheiroso e bem-cuidado”, pôs lenha pra queimar na churrasqueira a amada Ivana Arruda Leite.

Mas ai não correríamos o risco de perder a personalidade, a pegada?, indagariam os mais tradicionais, aqueles que nunca se permitiram a nada mais do que um punhado de Minâncora ou banha de peixe-boi da Amazônia sobre uma espinha ou um cravo revoltoso.

Perfume ou cheiro natural de homem?

“En Havana mejor sucio mismo”, prossegue dom Gutierrez, pelo que entendi do seu espanhol selvagem.

E tome dilemas noite adentro.

Estão vendo como não está sendo fácil ser macho nos tempos modernos?!

“Macho que é macho não fala a expressão tempos modernos”, Marçal solta o jab de esquerda.

Picanha sorri a sua melancolia mais  sagaz e Pedro Juan Gutierrez parece ter encontrado o melhor amigo fora da Ilha. O mestre Picanha ganhava mais um round no ring da noite.

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Homem de saia: tabu de meio século em SP

Mais de meio século depois do artista Flávio de Carvalho desfilar pelo centro de SP (aí na foto),  um homem vestido de saia voltou a escandalizar em plagas bandeirantes.

Regredimos tanto que desta vez o rapaz nem precisou ir para as ruas. Foi achincalhado em pleno campus da USP, a universidade teoricamente mais moderna do país.

Nas redes sociais, nem se fala. O estudante de têxtil & moda Vitor Pereira, 20, tem sido a Geni da vez. Olha ele aí abaixo.

Eu não teria peito, embora este cronista possua pernas bem torneadas pelo passado futebolístico de um autêntico camisa 10 -risos inevitáveis aqui até da patroa. Não teria coragem na condição de macho-jurubeba, mas defendo até o último fio de tecido o direito de cada um usar a peça que deseje.

Precisa ser muito homem para tal ousadia. O menino Vitor é um forte. Por causa da reação, criou até uma página-manifesto no Facebook defendendo o uso de saia pelos rapazes.

É muito mais confortável e se sente bem nas vestes, diz. Sem esquecer, caríssimo Vitor, que é mais adequado aos tristes trópicos. Pela criação do bicho solto.

Embora este cronista tenha pernas bem torneadas pelo passado futebolístico (risos da patroa aqui ao lado), jamais eu arriscaria tal exibição pública. Não esqueça, porém, que estou com quem tem a manha e a coragem. Todo apoio. Mesmo.

Pela multiplicação dos Flávios de Carvalho, este grande artista fluminense (alô Barra Mansa!) que atravessou SP vestido com o seu saiote com pregas, blusa de nylon com mangas folgadas e sandálias de couro. Traje tropicalíssimo. Gilberto Freyre aplaudiu à época.

Vanguardista, o arquiteto, engenheiro, escritor e filósofo, além de muitas outras formações e ofícios, era um gênio das performances. Promovia flash mob ainda nos anos 1940.

Nesta quinta, 18h, alunos de cinco campi da USP prometem um protesto: homens vestirão roupas convencionalmente de mulheres e vice-versa.

E você, cabrón, topa aderir ou teme a reação pública? Muitas mulheres se declaram atraídas por tal procedimento arrojado dos mancebos. Vai ancarar?

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Aos amigos do Bang With Friends, com carinho

A princípio não se come inimigos -a não ser no canibalismo mais selvagem dos bravos caetés e tupinambás. Daí surgiu o Bang With Friends, o aplicativo do Facebook para facilitar a transa entre os amiguinhos(as) da rede social.

Mas eis que um dia, o que se anunciava como seguro e secreto teve suas portas arrombadas. Uma falha no serviço, como vimos, permitiu que todo mundo visse quem estava a fim de uma saudável sacanagenzinha sem compromisso.

Como a maioria de vocês, fui conferir a lista dos meus amigos na fila do B.W.F. Fora uma carola ou outra, estavam lá os críveis personagens que eu imaginava mesmo. Sem grandes surpresas. Os queridos e queridas tarados de sempre.

Confusão mesmo, federalíssimo barraco, rolou com um casal amigo de Brasília. Chamemos as doces criaturas de Eduardo & Mônica, no embalo místico da febre Renato Russo.

Eduardo conferiu e ficou furioso ao ver que a sua linda mulher estava a fim de uma aventura além das cercanias do lar doce lar.

Mônica riu ao ver o maridão inscrito no serviço outrora secreto. Mônica, mais liberal, não se escandaliza com café pequeno. Não houve sequer espanto para a sossegadíssima candanga-girl.

Eduardo, um tanto quanto hipócrita e porco-chauvinista, não se conforma. “Ela está a fim de dar para outros, cara, não sei se vou conseguir conviver agora com essa realidade”, disse-me hoje cedo. “Para quantos ela já deu a essa altura?”

Eduardo está paranoico. Não sossega o juízo. Fica repassando a lista geral dos amigos de Mônica para tentar descobrir com quem ela teria transado. Um obsessivo.

Sossega, meu rapaz, afinal de contas, como soprou ontem um camarada no bar Joia Carioca, chifre é como rato, você acha um e logo aparece um monte. Deixa quieto.

Amigo do casal, farei tudo, com as forças poderosas de Miss Corações Solitários, para devolver a paz aos pombinhos.

Bobagem, meu bem, não passa nada. Temos que aprender a conviver com essa vida paralela que quase todos nós adotamos na rede.

Uma vida paralela como canal das humaníssimas fantasias diárias. Não obrigatoriamente para ir às vias de fato.

Aproveitem tais fantasias para reesquentar geral a chapa caseira. Funciona. Agora com licença que vou ali mandar um sinal de fuego para as carolas da minha lista amiga.

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Complexo de Édipo com a mãe alheia

“Antigamente quando eu me excedia/ Ou fazia alguma coisa errada/Naturalmente minha mãe dizia:/ Ele é uma criança, não entende nada.” (Erasmo Carlos)

Porque as mulheres com filhos são especiais, especialíssimas, como sempre sublinho nestes papiros mudernus.

Porque tem homem que morre de medo do que se costuma chamar por ai de “pacote completo”, quando a deusa vem com os seus meninos à tiracolo, canguruzinha marlinda.

Se bem que conheço amigas que temem mais do que nós hombres. Diante do menor barulho dos diabinhos fazem cara de Herodes.

Eu faço é cara de marido.

E tenho inveja porque não são meus. E tenho inveja porque não pude influenciá-los, ainda, nem na escolha do time.

Tudo bem, já saquei muito da cachola aquela lengalenga tipo Brás Cubas: não quero deixar na terra o legado da minha miséria etc etc.

Balela.

Bora fazer menino, minha musa, e confundir de vez criador e criatura.

As mulheres com filhos são o que há de mais tentador nesse lero-lero vida noves fora zero.

Incríveis, magníficas, únicas. No papo e na cama.

Agora rio aqui sozinho lembrando da noite em que fui pela primeira vez para a casa de uma ex-ex-ex.

Saía desesperado do quarto em busca de um copo d´água. O amigo que bebe sabe o que é um homem cego, que não achou os óculos na cabeceira, saindo por uma arquitetura desconhecida, na madruga, em busca de um refrigério para a ressaca.

Depois de alguns tropicões, seguindo uma fresta de luz, ainda sem fazer ideia onde estava a geladeira… eis que um endiabrado menino, senhoras e senhores, portando uma daquelas armas iluminadas que me levou direto para um conto de ficção científica.

Aquela tocha de fogo aumentou ainda mais a minha sede e desespero. Não se nega um copo d´água a um ressacado, apelei ao rapazinho.

Sorriso sádico, o menino, armado com uma daquelas miseráveis espadas de He-Man, não cedeu ao meu apelo. Quem manda mexer com a sua linda Jocasta. O ciúme e a sede de aventura o faziam me espetar e dar pulinhos ridículos e cegos.

Quando fui tomar o mísero copo d´água, o dia já havia dado as caras. Depois do duelo, e muitos passeios a três, de mãos dadas, nos tornamos grandes amigos.

Por isso é que aqui repito um haikai que fiz ainda nos anos 80:

Que coisa feia/ Complexo de Édipo/ com a mãe alheia!

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Quando o amor ata, desata e reata

(Ou o Amor é fósforo com duas cabeças)

by Rita Wainer

Tudo que ata, desata, mas quando é amor de muito, como na balada marinha de Chico Science, reata. O amor na conserva do mar salgado.

No tempo  em que quase nada fica, nem o amor daquela rima antiga, é quase milagre, yo creo em milagres e reescuto Ramones, play again, sempre.

E quando imaginávamos que estava tudo acabado, que amor não mais havia, que tinha ido tudo para as cucuias, que o fogo estava morto, que o amor era apenas uma assombração do Recife Antigo…

Quando já dizíamos, repetidamente, a uma só voz, aquela crônica triste de Paulo Mendes Campos: “Às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido…”

Quando já separávamos, olhos marejados, os livros e os discos…

Quando o Neruda já estava no fundo da caixa de mudança…

Quando mirávamos, no mesmo instante, a nossa foto feliz no porta-retratos…

Quando não tínhamos nem mais ânimo para as clássicas D.Rs – discussões de relação, que saco etc…

Ave, palavra, quando até o gato, nervoso, sem saber com quem ficaria, quebrava coisas debaixo daquelas telhas àquela altura…

A casa caíra, nem corruíra nas manhãs; sabiás nas madrugas paulistanas jamais…

O cheiro do fim tomara todos os cômodos, a rua, o quarteirão, o bairro, a cidade, o mundo…

Quando só restava cantar uma música de fossa… “Aquela aliança você pode empenhar ou derreter…”

Quando só restava a impressão de que eu já vou tarde…

Sim, o quadro era realmente trágico, não se tratava de exagero nosso. Sabe quando resta apenas o silêncio e o descaso nos jantares?

De tanta inércia, faltava até força para que houvesse a separação física, faltava força para arrumar as malas, para ir morar no Lameiro, lá no Crato, ou na casa de um amigo.

Ah, amigo, quer saber quem bateu o ponto final da história do casamento? Ela, claro! Você acha que homem tem coragem para acabar qualquer coisa?

O estranho é que ela não disse, em nenhum momento, que não gostava mais do pobre mancebo. Aquilo me encucava. Porque um homem, como disse o velho Antonio Maria, nunca se conforma em separar-se sem ouvir bem direitinho, no mínimo quinhentas vezes, que a mulher não gosta mais dele, por que e por causa de quem etc etc.

E nesse clima de fim sem fim, os dias foram passando… Até que chegou o domingo.

Eu acabara de levantar do amigo sofá, que havia se transformado no meu leito, quando ela passou com uma cara de impaciência e desassossego. Mais que isso: com vontade de matar gente!

Era a cara que fazia quando estava faminta. Sabe mulher que fica louca quando a fome aperta?

Vi aquela cena e cai na gargalhada. A princípio ela estranhou… Mas sacou tudo e danou-se a morrer de rir igualmente. Nos abraçamos e rimos e rimos e rimos e rimos daquilo tudo, rimos da nossa fraqueza em não dar a volta por cima, rimos do nosso silêncio sem sentido, rimos desses casais que se separam logo na primeira crise, rimos da falta de forças para enfrentar os maus bocados, rimos, rimos, rimos….

E um casal que ainda ri junto tem muita lenha verde para gastar no feijão com arroz da existência.

Agora ela está deitada, linda, cheirosa, gostosa, psiu!, silêncio, ela dorme enquanto termino esta crônica do nosso reincêndio.

O amor é fósforo com duas cabeças!

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