Publicidade

Xico Sá

Modos de macho, modinhas de fêmea & outros chabadabadás

Perfil Xico Sá é escritor, jornalista e colunista da Folha

Perfil completo

O partido dos corações partidos

Por Xico Sá
08/10/14 13:32

francoise hardy image 30A velha política, livre de qualquer novidade, pega fogo, com toda sorte de mistificação e preconceito. A velha política pede abrigo no coração das trevas.

Mas o que interessa, nesse momento, é o coração partido de Carolina, ainda menina para um amor tão punk-rock.

Ela me escreve e diz que achava que a dor, nestas ocasiões, era apenas simbólica. Ela diz que dói no osso, nas articulações, na sola dos pés, do-in às avessas etc.

Sim, moça, dói como quem tem uma bala alojada no corpo. Dói como uma bala alojada em noite de inverno.

Como faz?

Eu digo: passa, não se avexe, mas tem o tempo disso, o luto, o processo.

Ela pergunta: quanto tempo?

Só o vento sabe a resposta, digo, num mix de J.M. Simmel e Bob Dylan.

O partido de Carolina é o do mais óbvio e destroçado coração partido.

Tem remédio?

Se a vida dói, drinque caubói, receito, diante da gravidade da hora.

Carolina sequer levou um pé-na-bunda, não rolou sequer o velho kichute do desprezo em desleais pontapés.

Carolina conta: simplesmente tomou conhecimento que o miserável das costas ocas já havia mudado de mala e cuia para a casa da outra sem sequer avisá-la do triste ocorrido. Soube por uma amiga da amante.

Se a vida dói, drinque caubói, repito meu velho mantra.

Tente também a psicanálise, a terapia tradicional, a macumba, os florais, a tarja preta, a reza forte, os deuses que dançam em todas as tabas, florestas e terreiros.

Nada disso vai dar jeito imediato, mas tente, menina, tente. A gente precisa ter uma ilusão de cura nesse momento. Viver também é placebo.

Os amigos de esquerda, os colegas de direita, os queridíssimos anarquistas tentam falar de eleições com Carolina.

Não tem jeito. Seu coração partido está imune a discursos. O partido do coração partido não consegue fazer alianças oportunistas.

Não há segundo turno para os partidários do vexame amoroso.

Carolina escuta Françoise Hardy (na foto), Cat Power, Patty Smith, Tom Waits, Wander Wildner, Tatá Aeroplano e Robertão das antigas -“Olha, dentro dos meus olhos, vê quanta tristeza/ de chorar por ti, por ti…”

Carolina escuta também um pouco do Chico, afinal de contas seu batismo é baseado na música homônima do cara:

“Inútil dormir, a dor não passa”.

Daqui a pouco o sentimento vira o disco. Quanto tempo? Não faço ideia. É processo, inseto que vira borboleta.

A arte da cantada permanente

Por Xico Sá
02/10/14 01:02

HomemQAmava

Chegamos a outubro e reparei que ainda não havia repetido este ano uma das minhas campanhas obrigatórias, renováveis e sustentáveis. Eis o panfleto lírico:

A cantada, amigos, é como a revolução de Mao Tse-Tung, tem que ser permanente.

Querem ver uma história que representa muito isso? Vejam o francesinho do cartaz arriba -“O Homem que amava as mulheres”, do Truffaut, o cara que nasceu para filmar o amor.

Existem mulheres que a gente canta no jardim da infância para dar o primeiro beijo lá pelos quatorze, quinze, e olhe lá.

Mas é necessário que a cante sempre, não aquela cantada localizada, neoliberal e objetiva, falo do flerte, do mimo, do regador que faz florescer, como numa canção brega, todos os adjetivos desse mundo.

A cantada de resultado, aquela imediata, é uma chatice, insuportável, se eu fosse mulher reagiria com um tapa de novela mexicana, daqueles que fazem plaft!

A boa cantada é a cantada permanente.

E mais importante ainda depois que rolam as coisas, depois que acontece, aí a cantada vira devoção, oração dos pobres moços a todas elas.

Porque cantar só para uma noitada de sexo é uma pobreza dos diabos, qualquer um animal o faz.

Porque cantar, à vera, é cantar todas e não cantar nenhuma ao mesmo tempo.

Explico: é espalhar pacientemente a devoção a todas as mulheres como quem espalha sementes nos campos de lírios.

Mesmo que elas digam, com aquele riso litografado na covinha do sorriso, que você diz isso para todas.

E claro que para cada uma dizemos uma loa, fazemos uma graça, não repetimos o texto, o lirismo, o floreado.

Porque amamos mesmo as mulheres.

Cantemos indiscriminadamente, e que me perdoe o velho e bom Vinícius de Moraes, mas cantemos sobretudo as ditas feias, esse conceito cruel e abstrato de beleza. Elas merecem, até porque as feias não existem, nunca conheci nenhuma até hoje.

Não por sermos generosos, piedade, ou algo do gênero… É que a dita feia, quando bem cantada, vira a superfêmea, para lembrar a bela pornochanchada com a Vera Fischer.

A cantada permanente e indiscriminada é irresistível, quando você menos espera, acontece o que você tanto sonhava.

Sim, tem que ter o cuidado para não ser simplesmente um chato que baba diante do melhor dos espetáculos, a existência das mulheres.

Ter que cantar sempre a mesma mulher e parecer que está apenas de passagem, que o estribilho é sempre novo, nada de larararás que mais parecem refrões do Sullivan e do Massadas.

Ah, digamos que você cantou a Sônia Braga ainda naqueles tempos em que Gabriela subiu com aquele vestidinho no telhado –a cena mais quente da teledramaturgia brasileira até hoje- e e continuou cantando, sempre, sutil e sempre, e agora ela, passados tantos calendários, se comove e resolve recompensá-lo! Vai ser lindo do mesmo jeito, não acha? Na tela do nosso cocoruto vai passar o videotape de todos os desejos antigos e despejados no ralo pela morena cravo & canela.

O tal do amor aberto dá certo?

Por Xico Sá
28/09/14 04:43

milomanara01

O leitor indaga este destemido consultor sentimental à queima-roupa, em um encontro na estação Consolação:

“O relacionamento aberto pode dar certo?”, tasca, com cara de quem está sendo passado para o último vagão dos homens no descarrilado e derradeiro metrô do amor e da sorte. “Ela propôs. Disse que é assim ou nada”.

Tive dó daquela criatura. Pensei em jogar uma teoria, lembrar do poliamor, aqueles livraços sacanas do Roberto Freire, aconselhar a leitura de “A cama na varanda” da brava Regina Navarro Lins… A delícia que pode ser tentar sair por ai, à franciscana, sempre na base do é dando que se recebe.

Fiquei tentado também a presenteá-lo com o bilhete único da obviedade rodriguiana:

Meio amor não é amor, cai fora, se liga. Se fechado não funciona, imagina na base do “oh! rebuceteio”, como na ilustração acima do gênio italiano Milo Manara!

O sujeito de meia idade, vestes invernosas puídas em plena primavera, exalava a naftalina de outras dores acumuladas no guarda-roupa:

“Me ajuda”, disse, em um abraço de cortar coração, passarinha, fígado, moela e todos os miúdos da humanidade.

Era uma dessas criaturas infelizes no amor. Ponto.

Tentei reanimá-lo com aqueles clichês da esperança a qualquer custo que aprendi nos filmes de Frank Capra. Levei o desalmado para uma bisteca crepuscular no “Sujinho”, estabelecimento que sempre funcionou como a minha clínica sangrenta de psicanálise selvagem.

Na primeira cerveja ele chorou por ela. Para tentar desconstruir minimamente o mito do amor romântico, perguntei: “Gostosa?”

“A única que me levou ao nirvana!”, diz Roberto, na casa dos cinquenta, babando na bisteca, inconformado. “Amor aberto, amor aberto, amor aberto”, balbucia, obsessivo. “Amor aberto, amor aberto, amor aberto…”

Realmente o amor aberto é uma beleza. Para o(a) dono(a) da iniciativa, da chave e do cadeado. Para quem decide abrir a cancela dos sentimentos, para quem grita primeiro pelo menino da porteira.

O pior da proposta de amor aberto, fui obrigado a alertar o Roberto, é que pode ser um baita truque. Coisa de quem está apenas te largando para viver um aferrolhado e fidelíssimo amor com outro(a).

Muitas vezes a tese do amor aberto não passa de uma desculpa menos dolorosa (menos?) para dizer que está indo embora. “Preciso ter o meu espaço etc”. Aquela coisa meio doutor Smith perdido nas galáxias dos sentimentos.

Toda vez que escuto a expressão amor aberto, me fecho para balanço.

Com a ajuda dos generosos garçons, coloquei Roberto num táxi rumo à praça da Árvore.

Ele babava: “Amor aberto, amor aberto, amor aberto…”

E você, amigo(a), já teve sim alguma experiência do gênero? Isso existe ou é penas coisa de livro e tese? Funciona? Digaí.

E Abelardo da Hora recriou a mulher

Por Xico Sá
23/09/14 20:47

abelardo-da-hora-41 (1)Morreu hoje (23), no Recife, um gênio brasileiro: Abelardo da Hora, 90, escultor, pintor, ceramista, gravurista e poeta. Com várias obras-primas e públicas, é imortal na paisagem pernambucana.

O erotismo ao esculpir as suas mulheres e o permanente senso político de justiça social. Marcas do criador e do cidadão instigado.

A presença feminina faiscava seus olhos em um repente. Como apreciava. Testemunhei a cena muitas vezes na sua oficina.

A vida toda esteve ao lado de Margarida, sua mulher; amava todas as outras apenas como artista.  Que fogo, que criatura flamejante, que fulgor!

Em 2006, escrevi uma crônica inspirada na inflamável figura. Fica aqui como breve homenagem:

Uma das coisas mais lindas do mundo é um velho enxerido. Um velho lindamente safado.

O enxerimento como uma safadeza que nos mantém crente na existência.

O enxerimento cortês, o flerte quase inocente, a loa dita para a cabocla que passa, o verso rimado, o mote para a negra, para a mestiça, para a morena, o pé-quebrado para a branquinha cheirando a leite, o acróstico para todas, maneira de esticar a vida, como no enxerimento do meu avô João Patriolino, que deixava vó Meranda, índia de Águas Belas, enrubescida.

O enxerimento lírico de Abelardo da Hora, que grande homem, quase Deus a tirar do barro outras costelas, e que amor à sua própria dama, que magrinho com amor de sobra, que olho aceso feito brasa, que chama, como na sua canção predileta de Capiba, com letra de outro velho enxerido, o farto Ascenso Ferreira.

Andava com certo fastio do mundo quando vi da Hora na tevê, num programa da Globonews,  merecida homenagem a um dos nossos maiores escultores, da Hora, 82 anos, mas com uma fome de viver da gota, da Hora com um olhar apaixonado para as mulheres, todas que apareçam à sua frente, da Hora cantando lindamente a repórter, da Hora com olhos marejados por uma existência de solidariedade aos lascados e devoção às fêmeas do universo.

E a vontade de fazer novas coisas desse homem? Meu Deus, dê-lhe uns dois séculos e meio de vida, ele merece, e quando chegar aos 250, meu Deus, dê mais um chorinho, repare como ele é comovente, repare como ele amassa as costelas do barro, repare como ele parece Deus fazendo mulheres.

O enxerimento é a gasolina azul dos mais velhos, prorroga os dias, renova as folhas das folhas do calendário.

Um velho enxerido sente de longe quando se aproxima uma mulher bonita, fica logo aceso, bate as asas, tem o tesão do galo e a liberdade do cachorro.

Toda liberdade do mundo para um velho enxerido. Um velho enxerido tem a beleza de um louco, passagem livre, pode tudo.

Um velho enxerido reinventa a mulher, como se a esculpisse naquele instante, não há feiura para um velho enxerido, tudo é beleza para este homem.

Lembro de minha vó Meranda, Merandolina Freire de Lima, minha vó índia, minha vó com a mão na boca, envergonhada, cerimoniosa, diante das loas de seu João, que não deixava uma mulher passar em paz na frente de casa.

Ele ouvia os passos da nega e já começava o repente. “Vôte, João, tu não tem jeito mesmo”, dizia baixinho vovó. Até as moças ficavam sem graça, mas que gostavam, gostavam. Algumas delas passavam não sei quantas vezes no terreiro e, lembro-me bem, como ficavam tristes quando não mereciam a renovada oração diária, a loa, o capricho, o decassílabo invocado.

Minha vó ficava passada, ruborizava mais ainda quando o velho enxerido se voltava para ela, reza de todas as tardes, e dedicava-lhe versos inéditos, mesmo depois de 50 anos de convivência.

“Vôte, João, tu não tem jeito mesmo!”

“Fazer o quê, Meranda, se o meu amor é novinho em folha e cada dia é uma roça nova?”, rebatia ele, arrodeado de cachorros e galos no quintal de casa.

Viva Abelardo da Hora.

Como eleição mexe com amor e sexo

Por Xico Sá
23/09/14 04:15

rebuceteio

Vivian que flertava com Marcelo, mas que desistiu quando soube que ele era Aécio; Fred que era tarado por Vivian, mas, em um ríspido bate-boca na madruga carioca do Galeto Sat´s (ai de ti, Copacabana), viu a possibilidade de sexo virar promessa de campanha.

Sujou. Fred correu para tentar uma chance no vizinho Cervantes, Marcelo aplicou a tática do futiba: perder de um, perder de dez. E seguiu tentando a sorte no mesmo estabelecimento.

Vivian é Dilma, diga-se; Fred foi às ruas em junho de 2013 e marinou de primeira hora. Ele é crente na “nova política”.

Jonas também foi às ruas em junho, não acredita no sistema eleitoral, vai anular o voto e assim perdeu as chances com Nanda, a filósofa gostosa da área, que vai de PSOL, de Luciana Genro ao estadual.

Sim, segundo lavrou na sua ata o garçom Ceará II, Romildo, um sósia do Hugo Carvana, ex-brizolista, agora é Eduardo Jorge e é o único que não tem enfrentado rejeição sexual até o momento.

Eis uma breve ciranda ao estilo “Oh! Rebuceteio”  democrático (cartaz na foto) recolhida em um insuspeito ambiente noturno pelo cronista. Como no filme genial da era da pornochanchada.

Ainda no comecinho da campanha, tratei aqui do drama que poderia ser o debate eleitoral para as amizades, os amores, casos & rolos no geral. Leia aqui, mas não agora, vem comigo.

Não se trata de um “bem que avisei”, o negócio é que ganho a vida como profeta do óbvio mesmo, essa infindável herança rodriguiana, amém.

Voto desde o pleito municipal de 1988. No Recife, mais do que em qualquer outro lugar, a disputa era pesada entre esquerda e direita –foi a última cidade do mundo a derrubar o seu particularíssimo Muro de Berlim.

Nunca vi, porém, nada mais passional como agora no Brasil. Tudo que era uma inocente troca de sopapos em um bar, por exemplo, foi multiplicado por milhões nas redes sociais –apesar do conceito de esquerda/direta, volver, exista, mas esteja infinitamente mais diluído.

Muito raramente alguém de esquerda levaria para a cama um rolo de direita antes da queda do muro. E vice-versa.

Mesmo com toda a suruba eleitoral de siglas e alianças de hoje, reparo em uma retomada dessa passionalidade. A noite do Galeto Sat´s que o diga.

Será que a coisa anda assim em outras freguesias? Nunca mais fui à brava Mercearia São Pedro, ô filho ingrato. Nem no invicto e resistente Mercado da Boa Vista, no Recife, voltei com os chapas Bidu e Tibério. Ai, ai, saudade.

Como andam as coisas no Chico Discos, bar-sebo de São Luis? No Bar Brasil, em Londrina, preferi, em breve visita na semana passada, observar as sádicas Justines da terra roxa.

E você, amigo(a), o que me contas dessa onda toda? Foste eleitoralmente desfavorecido(a) ou és bom nas manobras do kama-sutra político de bares e comitês?

Até que a intolerância nos separe

Por Xico Sá
22/09/14 02:25

 

Na saúde, na doença, no estádio... Foto do jornal "O Tempo", BH, sem crédito do autor

Na saúde, na doença, no estádio… Foto do jornal “O Tempo”, BH, sem crédito do autor

Juntos e misturados. Sem essa de separados no campo de futebol.

Você torce por um time, seu rapaz por outro. Você ama mesmo o futebol e faz questão de ir ao estádio com a camisa do seu clube querido.

Com toda razão amorosa possível, vocês querem ficar juntos nas arquibancadas, mesmo você, moça, com a camisa do seu time –como era antes da violência tomar conta, é que os jovens não sabem disso.

Foi o que aconteceu neste domingo com o casal Andressa Barbosa, 26 anos, atleticana, e Daniel Milla, 29, cruzeirense. Galo e raposa juntinhos na torcida azul.

Uma atitude revolucionária nos costumes, além de corajosa, que ajuda a minar o ódio e enfraquecer os intolerantes filiados a qualquer clubismo.

Por que não posso ir como minha namorada ou meu namorado ver um jogo juntos?

Seja no Mineirão, como neste caso, no Brinco de Ouro da Princesa, no Romeirão (eu Icasa; ela Guarani) ou na Baixada Melancólica –o estádio de Santa Maria(RS) que tem o apelido mais genial de todos, por ficar perto de um cemitério.

Por que não?, como perguntaria um sem lenço e sem documento.

Não há lei que proíba nem passado que condene. Esses moços, pobres moços, precisam saber que isso era bem possível e a graça da geral do Maraca, por exemplo.

Seria lindo se a gente reaprendesse essa lição de respeito que era dada a todo domingo no “país dos banguelas” dos velhos estádios brasileiros.

O Thales Amorim, de BH, me deu o toque no twitter sobre o acontecimento das Minas Gerais. Fui ler a matéria do repórter Guilherme Guimarães, no site do jornal “O Tempo”. E não é, rapaz, que apenas um solitário “babaca”-como foi chamado pelos próprios torcedores do Cruzeiro- xingou, deu chilique e piti com a presença da atleticana!

Coisa linda que o namorado segurou firme a onda, recriminou o babaca e contou com apoio da torcida. Coisa linda que um casal possa ver um jogo no estádio independentemente das cores de cada um no futiba.

A garota ainda disse à reportagem que não seria louca de gritar nos gols do Galo, que seguraria a onda na buena.

Foi um avanço. Um gesto além do simbólico. Daqui a pouco ela vai poder sim vibrar, como estivesse em casa com o destemido cruzeirense. Quando o mando for do Galo, quem sabe ele também não encara a adversidade. Ela ficou com esse crédito, foi bravíssima, que mulher extraordinária.

Como ando otimista!, uma verdadeira Pollyana, na fase moça. Quase um Cândido de Voltaire!

Sim, bem sei que o mundo não é lá essas belezas, mas a humanidade está evoluindo. Nessa de torcer junto com o amorzinho quem sabe a gente logo mais alcance o começo dos anos 1980. Eu acredito, eu aprendi na geral dos estádios com gente de todas as cores, todos os times, todas as classes.

Pois é, tão incrível, para os tempos de hoje, que fico até pensando: será que não era uma pegadinha publicitária? Deus tomara que não. Quero acreditar. Eu tenho fé.

Boa semana a todos.

Pílulas de educação sentimental para jovens

Por Xico Sá
16/09/14 03:05

lp-lupicinio-rodrigues-dor-de-cotovelo-14257-MLB3575166029_122012-F

Só sei que nada sei, como me soprou o velho Sócrates. De Atenas à minha atual Copacabana é apenas uma viagem filosófica imaginária de segundos.

De Creta ao meu Crato natal é um pulo. No que este cronista greco-cratense deixa aqui, à guisa de educação sentimental aos mancebos, seu decálogo da semana. “Esses moços, pobres moços”, canta o centenário Lupicínio Rodrigues ao fundo musical da leitura:

1) A saudade é o genérico do Viagra.

2)) O que as mulheres querem de nós? Uma mistura de lenhador e homem sensível ao mesmo tempo.

3) Homem que é homem troca de sexo, mas não troca de time.

4) Homem que é homem não sabe a diferença entre estria e celulite.

5) Da costela de Clint Eastwood Deus fez o macho-jurubeba; da costela de David Beckham, Deus fez o metrossexual.

6) Só é possível filosofar em parachoquês: um homem sem chifres é um animal desprotegido.

7) Receita para cavaleiros aflitos: quando a vida dói, drinque caubói.

8) O macho brasileiro hoje é um macunaEmo: preguiçoso e chorão

9) Não há canalha maior e mais nocivo do que o homem fofo, digo, o falso fofo.

10) A conquista amorosa, caro Cortázar,  é como uma luta de boxe: o bonito vence por nocaute, o feio ganha por pontos.

O que se diz para acabar o amor etc

Por Xico Sá
11/09/14 01:41

mariel-hemingway

Revendo aqui “Manhattan”(1979), de Woody Allen, pela milésima vez. No que o filme me faz lembrar das legendas de fim de caso ou de amor etc.

(“Manhattan”que está para Nova York como “Febre do Rato”, de Cláudio Assis, para o Hellcife. Inclusive na poesia em preto & branco. Assim como “Roma de Fellini para ambos).

Rebobina, meu amor, rebobina. O que interessa aqui nessa crônica é o que é falado nos finais dos amores que se despedem.

O que é dito no instante maldito do maldizer proscrito.

O personagem de Woody despacha a Mariel Hemingway, graça-mor da humanidade, com a desculpa do desencontro de gerações. Típica história do tiozinho e da Lolita.

Pé-na-bunda preventivo –essa história sempre acaba com o homem envelhecido em barris de bálsamo se fudendo. E muito. Desde que Nabokov criou esse belo inferno.

Donde Woody, digo, seu personagem, troca a ninfeta por uma mulher mais velha com a qual pudesse discutir Nietszche e cinema cabeça.

Que bobeira. Como se houvesse mulher mais ou menos madura na vida independentemente de idade. Mulher já nasce sabida.

Sim, era complicado ficar com uma mulher que ainda faz “dever de casa”, como é falado no filme.

Logo mais, o personagem de Woody (preguiça de achar seu nome no Google) também é desprezado pela mulher madura, que volta para o ex, um homem igualmente feio porém mais terno.

“Descobri que eu o amo”, diz ela para o neurótico cara de tacho. Clássico. Vem alguém e só dispara o gatilho amoroso pelo ex.

Ele corre para a Lolita. Ela está de partida para estudar teatro em Londres. Perdeu, maluco, já elvis.

“Te quis tanto”, ela diz. “Agora não dá mais”.

Os dizeres e os maldizeres do “the end” amoroso. O mais doloroso que ouvi, priscas eras, foi: “Você não me emociona mais”. E em uma noite fria do cão em São Paulo.

As palavras finais doem mais do que todo crédito amoroso do final do filme. Reverberam meses no sótão do inconsciente, viram sonhos, buzinas de esquinas que nunca dobramos juntos.

Com ou sem palavrões, mesmo com os mais delicados vocábulos dos homens que desejam evitar choro ou barraco, a legenda final é sempre um eco sem fim no juízo. Mesmo com o cínico e escroto lema “você merece algo melhor” etc.

Até mesmo quando apenas o silêncio das refeições nos une milagrosamente, aquele “passa a salada”, dito por ela, nunca mais será um simples pedido por coisas estranhas, verdes e clorofiladas.

O amor é um filme que começa com a legenda melhor do que é dito de verdade pelas bocas famintas. O amor é um filme que termina intraduzível pela falta de língua na boca para o menor dos beijos possíveis.

E você, amigo(a), o que ouvi de pior que ainda hoje ecoa na cabeça-filme?

Sem piti não há amor, meu guri

Por Xico Sá
09/09/14 02:52
Lili, a ex, a musa do piti, personagem de Caco Galhardo

Lili, a ex, a musa do piti, personagem de Caco Galhardo

 

“Você não aguenta meu primeiro piti-mulherzinha, já corre daqui”, disse ela. “Que homem é esse, meu Deus?”, completou.

Cronista bisbilhoteiro, acompanhava a D.R. no bar e bodega Cameroon, de Mossoró (RN), onde estive para a X Feira do Livro. Aliás nem chegou a ser uma discussão de relação. O cara já fugiu, deu linha.

(E olhe que é difícil sair do Cameroon, um daqueles bares onde você encontra bons malucos falando de literatura russa como quem trata do Fla x Flu de domingo ).

Piti. Além de achar essa palavra “piti” genial, continuei a ouvir a moça,-uma dessas morenas sem igual que a gente só encontra na Chapada do Apodi e arredores.

Agora ela desabafa com duas amigas, depois de uns bons goles no azuladíssimo copo de tiquira:

“Quando corre do primeiro piti vejo logo que não tem futuro”, diz. “Imagina numa crise mesmo, coisa mais do que comum na vida dos casais, imagina na hora do parto”.

Realmente ninguém aguenta o mínimo queixume ou discussão. Vaza. Preguiça geral para o exercício primário da convivência.

“Ah, você é louca”, normalmente manda o macho, sem argumento e de bode para o namoro, caso, cacho etc. Pega a reta e põe a perder qualquer possibilidade de laços de ternura.

E assim, de raso em raso, até conhecerá o sexo, mas nunca o grande erotismo que se chama intimidade.

(Garçom, mais tiquira, por favor, a pioneiríssima aguardente indígena).

Se não aguenta “os distúrbios secundários da histeria”, como a definição do “Aurélio” para o pitianismo, imagina a humaníssima histeria de fato e de direito.

Ah, sim, o piti não é exclusividade feminina. O colérico macho enciumado, vade retro Satanás das Costas Ocas, é uma praga.

A crônica, porém, começa e termina com o piti-mulherzinha, como diz nossa amiga que motivou aqui a nossa prosa.

Antes um bom piti do que apenas o mimimi da rapaziada cada vez mais ao estilo MacunaEmo –tem a preguiça do Macunaíma e o chororô de um jovem roqueiro Emo.

Não há amor com 100% de bons modos e obediência cega aos manuais de etiqueta.

Sem piti não há amor, meu guri.

Sem ´sujeirinhas´ não há amor

Por Xico Sá
03/09/14 00:34

SEXUSHENRYMILLER

É café sem cafeína, drinque sem álcool, doce sem açúcar, massa sem glúten, o que era com ficou sem.

Ai tudo bem, o mundo está ficando muito limpinho e saudável mesmo.

Mas perai. As paranoias de saúde, bem-estar  etc, ok, compreendo. Afinal de contas o medo da Velha da Foice é legítimo, mora na filosofia desde priscas eras.

Sexo sem cheiro é que não dá. Ah, não. Pare o mundo que eu quero descer, como cantava o profético Sylvio Brito.

E cada vez mais ganha adeptos o sexo limpinho tipo aquele velho anúncio das havaianas: não solta as tiras e não tem cheiro.

Como se a limpeza extremada livrasse de todo o mal, o pecado, amém.

Havia escrito aqui neste blog do louco amor sobre os malucos que transam e correm para o chuveiro. Homens-flexas da assepsia. Nem aconchegam a nega sobre o lado esquerdo do peito, para que ela sinta as sístoles e as diástoles do acontecimento, um dos maiores prazeres da humanidade.

Necas, o avexamento asséptico não deixa. Vupt.

E haja ducha, escova de dentes, antisséptico bucal até no pau, senhoras e senhores.

Fazer sexo e não sentir aquele cheiro, o original bom-ar de Deus desde o Gênesis, é passar pela vida e não fazer jus aos cinco sentidos que trouxe do berço.

É ignorar um dos livros essenciais da humanidade, como o da capa que ilustra este post. Estou relendo. Recomendo a trilogia completa: Sexus, Plexus e Nexus.

Havia tratado também sobre a turma do nojinho em relação aos pelos. A nada ecológica mania de decepar a Amazônia legal das moças.

Tudo bem, até a amada Claudia Ohana já disse que mudou de estilo, não preserva mais o belo e misterioso bosque da Playboy dos anos 80. Depilar tudo bem, o que falo é dessa obsessão pela raspadinha radical. Baita infantilização do sexo, meu caro Sigmund?

Cuidado higiênico, ótimo, é o mínimo. O que não dá é esse sexo extremamente asséptico ao ponto de eliminar todos os cheiros, melações e sujeirinhas naturalíssimas da arte milenar de fazer amor.

É que li hoje uma reportagem na seção “Saúde & Equilíbrio” da Folha e fiquei espantado com os exageros. Muita gente caindo no conto da propaganda da turma do nojinho. Leia matéria completa aqui.

Correr para tomar banho e fugir das sujeiras do amor, faz favor, é pior que fazer aquela selfie pós-sexo.

Viver suja.

Publicidade
Publicidade
Publicidade

Folha Shop