Xico Sá

Modos de macho, modinhas de fêmea & outros chabadabadás

Perfil Xico Sá é escritor, jornalista e colunista da Folha

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Na vida só vale o pesinho sobre o outro

Por Xico Sá
13/04/14 06:06

 

pesim

Na vida vale o pesinho, o pesinho de nada, apesar dos pesares, como neste mundo lindamente perdido, arenoso e areento -sempre aparece alguém para botar areia no meio de uma boa história.

Inclusive o pesinho do pezinho.

Vale o leve sobrepeso. Nem que seja apenas aquele braço esquecido na intimidade da praia, como o casal genial ai da foto, coisa de cinema.

Melhor: vale o contrapesinho da existência. É o que equilibra o universo.

Aquele amor sobre teu ombro ou teu peito -sem foto selfie, por favor- apenas sentindo o cheiro do sexo nos ares.

O pesinho da hora do cigarro pós-coito, mesmo do imaginário e silencioso king-size dos amantes. Porque todo homem, mesmo o mais ferrenho e radical dos não-fumantes, traga esse momento como se fosse um francês de filme da Nouvelle Vague.

O peso do amor exasperado ou do amor que se reergue, lentamente, para outra fodinha nova. Ao natural ou com química a serviço da vida.

O pesinho do filho que adormece, no meio da feira de barulhos e diminutivos, sobre o colo ou peito materno.

Como comentou a amiga Joana Gatis, dia desses, direto da praia do Janga, sobre o pesinho de Raul adormecendo.

Em uma conversa com o camarada Gilvan Barreto, o homem d´O Livro do Sol, ele, do nada, relatou o justo instante em que uma das suas crias arriava o pesinho sobre as suas forças paternas no bairro da Urca.

Apesar dos pesares, só o pesinho sobre o peito, da mulher amada, do menino ou da menina, vale uma vida.

Vale quanto pesa o amor à vera.

Sem essa de relativo ou de teoria da relatividade. Talvez tenha algo da Lei de Newton, a maçã caramelizada do amor que despenca nos parques de diversões para surpresa da moça.

Independentemente da insustentável leveza do ser, vinga o contrapeso, sempre, amar é sentir uma perna sobre a outra como quem sente uma palavra perdida -ambas sem querer nada, a perna que sobra sobre a tua e vice-versa.

O pesinho é o que conta na balança dos amores possíveis.

O resto é o isopor do desamor e do fingimento mesmo que os amantes pesem quanto eles imaginam.

|Por que no amor, mesmo no descuido máximo, sempre sobra um pesinho na rua ou em casa. Amar é carregar essa apuradíssima balança existencial capaz de medir o quanto os homens  são  capazes de pesar uns sobre os outros até  o resto da vida.

O resto são aqueles “21 gramas” do filme homônimo do  mexicano Alejandro González Iñárritu.É quanto se especula que pese a alma quando deixa o esqueleto -desse outro mundo, porém, não entendo patavinas.

Fico com o pesinho dela sobre meu peito esquerdo, ali grudada nas minhas sístoles e diástoles da petite mort, a pequena morte do gozo, como dizem os franceses.

E que a terra, caro amigo Brás Cubas, nos seja leve.

Felipão e o esquema ´papai-e-mamãe´

Por Xico Sá
08/04/14 18:17

 

kamasutri

Felipão libera o ‘papai-e-mamãe´ poderia ser a manchete de qualquer jornalista sério que testemunhou a palestra do técnico da seleção brasileira em Lisboa.

Esse Felipão é uma onda.

Só não curti essa coisa dele agora ser fã de livro de autoajuda, o tipo do livro que só adianta para quem escreve |(10%) e, principalmente, para quem edita. Quero ver se o Muricy –“aqui é trabalho” como mantra de vida- cai nesse conto.

Ah, mas aí é outra pauta, para outro dia, deixa quieto.

O que interessa agora é o Felipão falando sobre amor e sexo. Voltemos a Lisboa, urgentemente.

Sim, os boleiros da seleção têm o direito sagrado ao sexo durante a Copa –é louco que isso ainda seja assunto polêmico no ano da graça de 2014!  Coisas do futebol: um ambiente ainda tão infantilizado que o técnico, mesmo à sua maneira bem-humorada, tem que responder ao tema.

Sexo pode. Ufa! Felipão adverte apenas contra os “malabarismos”.

Os bambuais do Kama Sutra (repare que capa incrível), o mais antigo livro do gênero,  nem pensar, amigo.

A posição do canguru perneta, vixe, esquece o mundo australiano.

O próprio Felipão explica:

“Se for sexo normal, sim. Tem que ser normal, não lá em cima no telhado. Normalmente o sexo é feito de forma equilibrada, mas tem pessoas que fazem malabarismos. Isso aí não pode”, afirmou.

O que teme Felipão? O medo de algum boleiro se machucar, mesmo se tratando de jovens atletas? Bobagem. Quase impossível. Isso de terminar a noite em um hospital de fraturas é para sedentários e homens gastos como este cronista.

O que Felipão talvez se refira -ele citou o telhado, por exemplo- seja às escapadas, as  fugidinhas da concentração etc. Prática que gênios como Garrincha, Paulo Cézar Caju sempre fizeram. Para o bem do futebol brasileiro na hora do jogo.

O Baixinho nunca negou e Garrincha fez até um filho com uma sueca em uma pulada de muro na Copa de 1958.

Está provado historicamente que sexo antes das partidas faz um bem danado ao sujeito, mas claro que não precisa chegar a ser assim um George Best, “o quinto Beatle”, como o irlandês ficou conhecido na Inglaterra depois de fazer até chover pelo Manchester United.

“Em 1969, eu abri mão de mulheres e bebidas e foram os piores 20 minutos da minha vida”. Este era o velho Best e suas tiradas dignas dos melhores escritores irlandeses.

Meninos do Brasil, obedeçam ao paizão Felipão, fiquem apenas no papai-e-mamãe, está ótimo. Afinal de contas, sexo, pizza e festa são sempre muito bons, mesmo quando muito ruins –há variações e variações do ditado, cito essa ai que ouvi, séculos atrás, em um filme inglês sobre um triângulo amoroso. Jamais vou me lembrar do diabo do nome desse filme. Até a próxima.

Vadinho: meu José Wilker preferido

Por Xico Sá
05/04/14 21:34

dona_flor

Meu personagem de José Wilker preferido é o Vadinho, um dos melhores canalhas da literatura brasileira.

Óbvio que Roque Santeiro da novela e o Tenório Cavalcanti do filme “O homem da capa preta” também são inesquecíveis. Isso até a Lurdinha sabe.

Menino do Cariri (Juazeiro), JW fez-se grande ator no Recife/Olinda, daí para a glória em terras cariocas.

Apesar de chatear a gente, parece menos bruta, parece mais suave a morte dormida. Parece que nem é obra da traiçoeira Velha da Foice.

Vadinho não teve essa sorte. Se bem que estava tão bêbado –Jorge Amado é o escritor com o maior número de personagens bêbados do mundo, ganha até dos russos nesse quesito.

Estava tão bêbado o canalha -um legítimo macho-jurubeba, um verdadeiro pau-d´água- que talvez tenha morrido feliz. Os bêbados morrem sonhando com bares celestiais ou drinques no inferno.

No meio do mulherio, em pleno domingo de Carnaval na cidade da Bahia, nem a morte conseguiu apagar, como narra Jorge, o sorriso de folião definitivo que ele fora.

É, amigo, tem homem que nasce para Vadinho e tem homem que nasce para Teodoro.

O primeiro não presta, mas derrete o coração das mulheres com a sua canalhice; o segundo é um sujeito virtuoso, direito, o objeto de desejo de uma fêmea quando está sofrendo, no dia-a-dia do lar, com um macho desmantelado.

Eles se completam nas suas oposições de espírito. Os Vadinhos jogam, bebem e são raparigueiros, piolhos de cabarés, só voltam para casa quando fecha a última barraca do mercado do Peixe, para ficarmos na geografia soteropolitana.

Os Teodoros não deixam faltar nada em casa, homens corretos, responsáveis, cumpridor dos seus deveres.

Como de besta não tinha nada, Dona Flor, por força da quentura do corpo e de alguma espiritualidade, conseguiu o milagre de viver com os dois maridos ao mesmo tempo, o cabra safado e o virtuoso.

Morena gulosa. Mas fez por merecer em vida o banquete, a moqueca de machos fervida no óleo da testosterona.

Fora dos livros e do cinema, pode ser que o esquema não funcione a contento. Mas não custa tentar, evoluída leitora!

Quero ver é exibir a selfie #BroxeiAcontece

Por Xico Sá
04/04/14 02:20

CINEMA-MARLON BRANDO

Comecemos à moda do samurai-polaco Paulo Leminski, com um haikaizim de lavra própria: Narciso no selfie/ reproduz o espelho/ para toda espécie .

Você viu, amigo(a), selfie pós sexo é a nova mania no Instagram, a rede social da fotografia.

Acho fofo, mas passo, agradeço.

Além de não ser assim um Marlon Brando (foto) da cena da manteiga do filme “O último tango em Paris” (1973), quero mais é curtir aquela sensação nirvânica.

Tem um detalhe: o homem não fica bem na foto depois do orgasmo –se tiver de ressaca, então, corra Lola, corra.

O único animal do mundo que canta depois que goza é o galo. O restante passa por uma bela tristeza do êxtase –o que tem sua beleza estética, mas não para ser mostrada.

O galo sim sairia bem na foto. Seria uma espécie de Obama da selfie pós sexo.

O macho mamífero não.

La petite mort, a pequena e bela morte, como dizem os franceses e me lembra aqui a leitora Tatiana Gageti.

No que aumento o volume do vinilzão do Sérge Gainsbourg, desculpe aí vizinha linda do 401 da Miguel Lemos (ai de mim Copacabana!), e sigo, mais ou menos sereno.

Selfie vê se me deixa fora de foco, selfie vê se aplica o filtro Glauber Rocha: cabezas cortadas.

Depois do sexo, melhor abrigar a pequena no peito, aplicar-lhe sutis dengos e cafunés e ouvir o que o silêncio, além dos sabiás de São Paulo, diz por nós. Se for na Pompeia e nas Perdizes, melhor ainda, os periquitos, em besta algazarra, comemoram aquele amor inventado, como todo amor no princípio.

Abrigar a pequena sim naquele silêncio dos inocentes.

Sem essa de sair correndo a tomar banho, como fazem os mais assépticos e fresquinhos, os que não usufruem do melhor cheiro, o cheiro sagrado dos lambuzamentos sexuais.

O melhor de tudo é guardar esse cheiro na barba e nos dedos e sair com esse cheiro a flanar pela cidade em constante porre olfativo, a loló da lembrança que ficou.

Melhor esquecer o banho agoniado de alguns limpinhos donzelos… Como estivessem higienizando os “pecados” à custa do sabonete L’Occitane da moça phyno trato.

Ah, esses moços, pobres moços, ah se soubessem, caro Lupicínio, como é bom guardar o cheiro dela, não do sabonete ou de fragrâncias frufrus, no próprio corpo, ah o cheirinho da loló do mais sujo dos sexos.

Que #afterxsex que nada!

Aftersex um cacete, sem essa de fatos & fodas, como chamávamos a velha revista do sr. Adolpho Bloch, grupo Manchete.

Essa selfie do suposto orgasmo é muito perva. Tem a perversão, assim como uma foto gourmet em algum restaurante metido e picareta, de bolir com a inveja alheia, o pecado capital predominante nas redes.

Quero ver é postar uma broxada ou brochada –pelo menos os dicionaristas têm bons corações, admitem as duas grafias desse humaníssimo ato falho.

Quero ver é postar a selfie ao modo daquela canção nietzschiana do Wando: “Beijo tuas costas e nada/ correm duas lágrimas geladas”.

Não, amigo, ninguém posta. Nas redes sociais todos somos Ziraldos, grande artista, nunca broxamos na vida.

Estive na Carençolândia e lembrei de você

Por Xico Sá
02/04/14 02:04

 

crumb21A ilustração autobiográfica é do R. Crumb, muito mais do meu apreço, mas poderia ser também do gatinho azul Frajuto apertado à exaustão por Felícia, a carente-mor do desenho animado. Frajuto é o mascote e animal de estimação preferido da Carençolândia.

Estamos de novo nesta inevitável terra do quase sempre.

Não há neste mundo uma só criatura que aqui nunca esteve. É a dupla nacionalidade mais óbvia de qualquer vivente.

Você viu que citei a Carençolândia na crônica anterior, este lugar para onde sempre voltamos, e recebi dezenas de mensagens com pedidos para explicar melhor este país imaginário. Com o resgate de textos antigos, revistos e ampliados, deixo um breve guia sobre esta pátria de óculos escuros:

Bravas fêmeas expulsas do paraíso por um deus misógino fundaram um reino nada encantado. Deram a este pueblo o nome de Carençolândia.

Embora tenha sido criado pelas mulheres no tempo em que só existia o fogo e o verbo, foram os machos que se impuseram, muitos séculos depois,  como os mais legítimos cidadãos carençolandeses.

Cuidado, frágeis!, eles estão perdidos, sejam metrossexuais, übersexuais ou brechossexuais [aqueles que só usam roupas com encosto de brechó]. Fracos, não agüentam o tranco das mulheres mais destemidas. Arrotam macheza nos botecos, mas logo que põem as patas em casa uivam para a lua minguante e sonham com uma chuva de coleiras.

O macho carançolandês não passa meia hora separado, não vive sequer o luto amoroso da resoluta que aplicou-lhe um conga no meio da bunda – a padoca mole e farta que dantes já prescrevia o chute. Ele vai lá e agarra a primeira que passa, nem que seja um manequim de gesso, como ocorreu ao meu amigo Sizenando, o mesmo corno carente -ai de mim, Copacabana!- das crônicas de Rubem Braga.

Bem-vindos ao reino da Carençolândia, esse golfo inevitável da existência.

Sim, na Carençolândia ninguém vem a passeio e o turismo é proibido. A Carençolândia é uma espécie de Mali, de Níger, de Burkina Fasso, de Guiné Bissau, de Chade… d´alma.

A Carençolândia é o vale do Jequitinhonha metafísico que chia como catarro em nossos pulmões e tórax _diga 33!!!

Carençolândia não tem sequer feriado.Um programa populista e eleitoreiro de saúde pública agora trouxe Prozac, Lexotan, Frontal e zilhões de remédios tarjas pretas para este reino. Os compromidos foram postos em toda a rede de água de Carençolândia… Adicionados ao sal, ao açúcar… Mesmo assim não houve um sorriso sequer, nem mesmo do gato lisérgico de Alice.

A Carençolândia não é para os fofos ou amadores. Aqui o bicho pega. É a geografia total do desassossego, sempre banhado por um braço sentimental do rio Tejo e um afluente do Velho Chico.

A Carençolândia é também marcada por inexplicáveis crateras em todo seu território, aqueles buracos sem nome e sem placas de advertência. Quando menos damos fé, estamos dentro.

Estive na Carençolândia e lembrei de você. Que tal um dia irmos juntos?

Bichos escrotos

Por Xico Sá
31/03/14 14:31

Leila-Diniz-Antonio-Guerreiro

Sim, nós somos machistas, mas essa pesquisa do Ipea não sai do juízo, Deus nos acuda, triste pensar que o cara do teu lado no boteco pensa (ainda) desse modo treva total.

Mulher com roupa curta é culpada pelo estupro?

Tem mulher para casar e mulher para trepar? Outro dia tratei do tema, na crônica sobre as “vadias”, Você pode ler aqui.

Mulher para isso, mulher para aquilo…

Parodiando o Benjor, Roberto corta essa!

Pior: o mulherio também respondeu a enquete e reforçou essa bagaceira do atraso e das trevas.

Como bem disse a antropóloga Mirian Goldenberg ontem a “O Globo”, em cutucada certeira e diálogo com a música da Rita Lee: “Não somos nada Leila Diniz (aí na foto de Antônio Guerreiro). Quem dera se fôssemos”.

Vergonha alheia total, brava gente.

Mas voltemos aos cavalheiros da távola redonda.

Você  é um homem ou um prato de papa de Araruta?

Poxa, a coisa mais bonita, desse encontro de meninos & meninas, é a conquista, e você ainda com essa prosa paleolítica?

Só o agrado salva o mundo.

Sem delicadeza não se vai à esquina.

Corta essa, desalmado!

Mas a gente sabe que não se avança só assim no assombro diante da pesquisa e na base da campanha de mídia.

Nem mesmo só na punição com cadeia, como tem rolado com a Lei Maria da Penha para casos de violência contra as mulheres.

Gostei de ver uma experiência de Londrina outro dia em um programa televisivo. Cadeia, óbvio, na pena prevista, e mais terapia coletiva obrigatória. Os resultados são muito bons.

Nessa imensa Carençolândia universal, todos precisamos de terapia para amaciar os catabios existenciais, imagina um cara nestas condições de ataque e monstruosidade.

Bora buscar a delicadeza perdida, rapaziada. Boa semana a todos.

Como estragar a noite de amor & sexo

Por Xico Sá
27/03/14 15:22

kama-sutra-1

Existem várias maneiras de arruinar aquela grande noite. A noite dos sonhos, a noite do meu bem, como canta Dolores Duran.

Uma delas, além da ansiedade que estala no corpo feito aqueles taxímetros dos fuscas de praça das antigas, é tentar reinventar a roda, digo, o sexo, como se fosse possível recriar o Kama Sutra.

Ao contrário do que supunha a lindeza do lirismo de Manuel Bandeira, as almas até podem se entender desde o primeiro flerte, os corpos não.

Não tente reinventar o Kama Sutra nas primeiras noites…

A dramaturgia da cama não é para amadores. O sexo é uma coisa tão séria que só deveria ser feito pelos devassos, pelos afilhados do Marquês de Sade e pela madre superiora.

Não é qualquer donzelo que resiste às firulas da alcova, a ginástica das pernas, à coreografia dos braços e ao bate-coxa propriamente dito. 

A verdadeira e religiosa pornografia (ou erotismo, como queira, não creio que exista diferença) é a intimidade.

Ai sim, quando atingimos esse nirvana, Bandeira volta a ter razão: podemos até dispensar as almas, pois os corpos já se entendem. Ai passa a valer o verso do pernambucano: “Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma”.

Com esse sexo cheio de pernas e mil e um malabarismos, coisa de quem assimilou das lições taradas das revista “Nova” (amo estas matérias!) ou do cirque du Soleil,  você pode levar o seu parceiro a uma bela câimbra -potássio já! ou a contusão mais séria.

Coitado, ele pode ter que fumar aquele cigarro pós-coito em uma clínica ortopédica ou em um milagroso massagista japonês.

Besteirinha sobre o amor e W. H. Auden

Por Xico Sá
26/03/14 01:24

crumbandolim

Estava aqui a ler na rede, não tão tranquilamente assim, “Diz-me a verdade acerca do amor”, talvez o maior poema sobre o tema. Do cara: W. H. Auden, ediçãozinha portuguesa e bilíngue, da Relógio D´Água, uma das minhas editoras preferidas no mundo inteiro.

Eu gosto mesmo é quando Auden ironiza e pergunta se o amor é fofo como um edredon de penas. Também quando o poeta dá conta que viu o amor escrevinhado nas costas dos guias ferroviários.

Que gênio. É, amigo, os anglo-americanos também amam.

E do nada, do nada mesmo, sinapse de cool é rola, me vem uma narrativa das antigas, que havia escrito, dez anos atrás, depois de um sofrimento amoroso fodido -as minhas únicas propriedades privadas, velho Proudhom, são as minhas dores de amor, e como me orgulho de não carecer passá-las em cartório.

Nesse sentido, levei, levamos porradas.

Não é questão de ressentimento, é questão mesmo de orgulho das dores, o resto é meu riso fácil que mal carece de dentista ou manchas de nicotina.

Da vida nada se leva a não ser a ressaca das vodkas e dos amores mal-resolvidos.

Toda história de dor, meu amor, é em primeira pessoa. Blow-up. Quando dei fé, cão vadio, aos teus pés lá embaixo estava, mulher-abismo.

Enfiei-me entre os dedos lambi como um lazarento… pulgas passionais ainda tentaram me avisar, epa!, durante a queda, em vão. Uma mulher muito grande, alma desenhada por R. Crumb. Pulgas mais avexadas, sado-camonianas, escreveram no meu couro, em caligrafia-coceira, “o amor é fogo que arde e não se sente”, ah, se eu pego esse Camões caolho eu furo o outro.

Lambi os dedinhos, um a um, queria que você visse o desassossego desse pobre cardisplicente sob a forte chuva de granizo.

Não há guarda-chuvas para o amor, Catherine. Nem mesmo quando se tem 20 anos. Não há diamantes que comprem uma alma perra, Catherine, não há barcos, salva-vidas, só perdição e enchentes. Não à-toa os sofás bóiam nos aguaceiros. Sofás dormidos por homens que erraram, homens que já partiram.

“As mulheres são todas diferentes. Quando se perde um homem, há outro igual ao virar da esquina. Quando se perde uma mulher, é uma vida”.

Desde o dia em que cai aos teus pés não sabia se estava a ganhá-la ou perdê-la. O AMOR É FODIDO, livro do amigo cronista ultramarinho Miguel Esteves Cardoso, me ensina coisas. Ao contrário das pulgas sado-camonianas, este gajo, certa noite das antigas, na cidade de São Paulo, boate Love Story, dizia que as lágrimas das raparigas são coquetéis sem álcool.

Dizer “não chores” funciona sempre, porque só mencionar o verbo “chorar” emociona-as e liberta-as, dando-lhes carta branca para chorar ainda mais. As raparigas, depois de chorar, soprou-me o gajo, lirismo-Morrisey, ficam com vontade de fazer amor.

Quem aí não tem uma paixão mal-resolvida?

Por Xico Sá
24/03/14 01:15

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Quem aí do outro lado nunca teve vontade de voltar o calendário e dizer o que não foi dito?

Ou de tentar de outro jeito?

Agora é fácil. Quero ver no tempo em que você, macho -sensível ou jurubeba- não sabia sequer dizer bom dia a uma mulher. Ou quando você, mulherão de hoje, se deixava ludibriar por aquele canalha.

Calma.

É que fui ali na livraria Folha Seca, na Ouvidor, sábado, pegar o autógrafo do amigo José Trajano –mais um que herdei da convivência com o doutor Sócrates- e sai com uma interrogação dependurada no trapézio do cocuruto, só para lembrar um bruxo que circulava naquela rua do centrão carioca.

Ah, sim, que interrogação miserável e traiçoeira, coisa de quem ficou à toa na vida e não procurou a bendita psicanálise:

-Qual paixão da minha vida me faria correr mundo para localizá-la e tentar um reencontro maluco?

Nem que fosse para um vinho, soltar aquele vago “pois é”, falar sobre o destino dos amigos, divagar sobre o tempo, comentar o noticiário do avião da Malásia, deixar que ela repare como as rugas fizeram residência no meu rosto…

É isso o que o “lapa de doido” do Trajano (o elogio é do doutor, que dividiu casa com ele na Itália) fez e narra no seu livro “Procurando Mônica – o maior caso de amor de Rio das Flores” (ed. Paralela).

Mônica é uma paixão mal-resolvida  de adolescência no interior fluminense, quando Zezinho, como era chamado à época, nem sonhava com o jornalismo esportivo.

Falo em paixão mal-resolvida e dom Álvaro Marechal,  guia lírico e sentimental da minha vidinha carioca, admoesta:

“Por favor, sem pleonasmos esta tarde! Se é paixão é naturalmente mal-resolvida”.

O certo é que Trajano foi em busca de Mônica guiado por duas perguntas simples do diretor Domingos de Oliveira no filme “Todas as mulheres do mundo”:

“O que uns olhos têm que outros não têm?”

“O que um sorriso tem que outros não têm?”

A viagem de Trajano poderia ou pode ser feita por qualquer um de nós. Na dele, damos sorte de ter, além do suspense amoroso –amor é Hitchcock!-, um belo panorama do cinema, da música, da política dos anos 1960 até agora.

E dá-lhe Miles Davis, Chet Baker e Pernoud com gelo na madruga.

Ele pensa, inclusive, em uma viagem a Paris, numa bela vingança: namorar a Anna Karina (foto), a musa do cinema francês, a miseravona da Nouvelle Vague. Queria ver Mônica, o amor do Clube Recreativo 17 de Março, segurar a onda!

Até futebol rola ao fundo, como aqueles radinhos fanhosos de porteiro nos domingos melancólicos de Copacabana. E se no amor foi difícil para o autor, imagina na pele de torcedor do América.

Como dizia Bandeira, lero-lero, vida noves fora zero.

Óbvio que não vou contar o final da busca do Trajano. Sacanagem entregar o desfecho.

Fiquei só pensando: quem eu iria à procura? De pelo menos uma em cada lugar que habitei: Sítio das Cobras, Nova Olinda (a menina da roda gigante), Juazeiro do Norte (a jogadora de basquete do Seminário Batista), Recife, Olinda, Brasília, São Paulo, Rio… Crato não vale, saí de lá ainda em cueiros.

E você, amigo(a), cometeria essa aventura?

O romantismo agoniza, viva o romantismo

Por Xico Sá
20/03/14 11:18

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A vida imita Hollywood e vice-versa.

Foram os romances franceses, na literatura, e o padrão fofo do cinema “love story” da América que ajudaram muita gente a construir a ideia de amor e romance.

Acontece que o romance azedou, como li dia desses nesta capa da Ilustrada, em reportagem de Rodrigo Salem. Filme de amor, seja drama ou comédia, não estoura mais bilheterias. Fracassa, flopa -para usar um verbo vintage que ficou perdido, graças a Deus, lá nos anos 1990.

Não se deve medir o mundo pela catraca da grana de Hollywood, certo? Não deixa, porém, para a crônica de costumes, de sinalizar uma grande mudança nas relações amorosas.

É só uma tese de botequim aqui na mesa da romantiquíssima calçada do Príncipe de Mônaco, ai de mim Copacabana. Uma tese sob o olhar desconfiado do grande peixe morto da vitrine –creio que um cherne, sim, ele mesmo, o garçom Ceará confirma.

Não se deve pensar o amor somente pelo cinema. Aqui fora da tela, no entanto, o romance nem passa mais pelo processo de azedamento. Estraga de véspera. O coalho da falta de desejo que azeda o queijo.

O cherne por testemunha, vamos a uma questão prática, já tratada diversas vezes neste blog: Você já reparou, amigo(a), como não se pede sequer mais em namoro?

Até os caranguejos em marcha ré, também aqui na nossa frente, caçoam da indagação ingênua e romântica do cronista.

Não se pede mais em nada. Muitas vezes você se pega sem saber se namoro ou amizade, rolo, rolinho primavera, cacho, ensaio de amor, romance ou pura sacanagem avulsa. Por isso que nem em Hollywood dá mais certo, caro Salem, faz sentido.

Estou em um relacionamento cafuso, diria o Didi Mocó a esta altura. Estou em um relacionamento “fala sério”. Eis o status do momento.

Há quem veja vantagem no colapso do amor romântico, que seria, na real, apenas um mito criado pelos filmes e romances antigos.

Amor em baixa, como diz o horóscopo.

No tempo do amor líquido e de homens escorregadios, quase nada fica, nem o velho e clássico amor de pica, que me perdõem as senhoras de Santana da marcha da família.

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