Xico Sá

Modos de macho, modinhas de fêmea & outros chabadabadás

Perfil Xico Sá é escritor, jornalista e colunista da Folha

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A covardia de chamar mulher de louca

Por Xico Sá
18/08/14 02:00
Leila Diniz como a cangaceira Dadá. Filme "Corisco, o diabo loiro", 1969

Leila Diniz como a cangaceira Dadá. Filme “Corisco, o diabo loiro”, 1969

Tás louca”. O pseudo argumento de nove entre dez homens quando as mulheres têm razão. (Karina Jucá, de Belém do Pará, no Facebook)

Quando acaba a decência e a razão machista encurta, só nos resta, acuados, chamar a mulher de louca. Quantas vez não me peguei nesse jogo sujo, assumo.

Quando o menino desatina, a louca é sempre a menina.

Quando estamos à beira do hospício, amarrados com as cordas do agave do velho Erasmo de Roterdam, rumo ao Santa Tereza do Crato, rumo a Itapira ou Barbacena, só nos resta berrar: só pode estar louca essa peste!

Quando somos pegos com a boca na botija e nada justifica o vacilo, só nos resta um indignado, indignadíssimo, você tá louca?

Quando ela realmente está louca de amor e não correspondemos, só nos resta dizer “você confundiu as coisas”, você tá louca.

Quando ela dança com outro e diz que é sem compromisso, até o Chico alerta, no seu belo lirismo: não faça papel de louca, para não haver bate-boca dentro do salão…

Quando ela realmente fica pirada, de tanto ser chamada de maluca, só nos resta, porcos chauvinistas, nos dizermos donos da razão histórica: “Bem que eu falei que você é louca de pedra, bem que eu falei…”

Quando ela enche o saco e vai embora, só nos resta chorar as pitangas, ouvindo um Waldick Soriano ou um Leonard Cohen na radiola. No que o garçom tenta nos confortar, com drinque caubói e a conclusão de sempre: “Mulher é tudo louca, amigo, não tem explicação, relaxa”.

Quando…

Quando ela enche, vai com outro e nos enfeita a fronte do artista, quem dera tivéssemos feito ela cantar mais vezes “me deixas louca” -em vez de reclamar da sua bela falta de juízo.

Como identificar um ´cafa´ apaixonado

Por Xico Sá
15/08/14 08:31

crumbLulu

Havia tocado, várias e várias vezes, no tema.  Não de forma, digamos assim, tão direta e reta -como se fosse possível ser objetivo com um assunto inteiramente subjetivo.

Devido ao grande número de cartas destinadas a Miss Corações Solitários, a consultora sentimental deste blog, retornamos ao assunto.

Vamos aos dez sinais para identificar um homem apaixonado ou comovido:

1) Por mais desmantelado e sem noção que seja, o cara dá uma melhorada no seu mocó de solteiro. Compra pelo menos uma cortina fuleira para substituir aquele papel-filme ou o cobertor improvisado, troca alguns copos de requeijão ou de geleia de mocotó por algumas taças, desentorta os talheres num gesto de Uri Geller ao contrário, compra pelo menos um jogo de lençóis novos –não aqueles mil fios egípcios, mas um honesto kit Santista pelo menos.

2) Fazer uma faxina antes da chegada da moça, incluindo aquela geral no banheiro, é outro esforço sobrenatural que pode denunciar paixão de um homem. O tosco até então sujismundo ganha inesperado TOC de limpeza.

3) Ele te convida para ir a um restaurante japonês. Detalhe: ele detesta comida japonesa, mas sabe que vai te agradar, afinal de contas o amor, nas primeiras semanas, passa pela peixeira afiada de um sushiman e muitas doses de saquê. Vale também um bistrô. Detalhe: ele ama um pé-sujo e acha comida francesa um caô.

4) O cara só curtia filme americano de ação. Assim do nada, vira um fã do cinema-cabeça, inclusive o cinema francês.Sai a estética Rambo e entra a delicadeza perdida. Te chama logo para ver “Azul é a cor mais quente” (“La Vie d’Adèle”), em cartaz no momento.

5) O miserável é um sedentário que só vive de ressaca. Praticamente um Bukowski sem o dom da escrita. De repente vira o maior esportista do mundo e te acompanha até no pentatlo, sem falar naquela trilha na serra da Mantiqueira.

6) O desgraçado não sabe fazer sequer um ovo mexido. Do nada aplica o truque do gourmet e chega em casa cheio dos frasquinhos de ervas finas e especiarias. Óbvio, doravante será também um homem-hortinha: cultivará seu próprio manjericão.

7) A desajeitada criatura agora compra umas roupinhas melhores. Nada extraordinário, mas perto do mendigo que era virou um dândi de tão elegante.

8) O infeliz, o mais impontual dos canalhas, chega antes de você aos encontros. Planejadíssimo, ainda em agosto já estava pensando na possível viagem de vocês no Revèillon. Cacilds!, é outro homem.

9) Ele curou até o Alzheimer do amor. Era incapaz de reparar mesmo em uma mudança radical no visu da sua ex –como pintar o cabelo de azul, por exemplo. Agora repara até quando você renova as luzes, cruzes! Sim, sabe a roupa que você usava nos primeiros encontros. Um gênio.

10) Para tudo. Ele trocou o jogo do time dele, na reta final do campeonato, por um passeio contigo. Tudo bem, ficou checando o resultado o tempo todo no celular, mas isso é uma tremenda vitória amorosa. Esse cara promete.

O crochê moderninho do amor etc

Por Xico Sá
11/08/14 22:29

Brigitte Montfort

OU

O TESÃO QUE ACENDE A LUZ VERMELHA DO RAIO-X

A moça na fila do raio-x do aeroporto dos Guararapes no seu crochê moderno, o crochezinho da nova era, digitando sem parar -já reparou como os dedinhos lembram o gestual do ponto das antigas agulhas maternas?, só que nossas mães faziam sentadinhas no sofá e não trombavam no poste da esquina.

Mas sem essa de comparações nostálgicas. O que vale é que a cada mensagem, a moça faz uma cara de safadeza mais linda desse mundo. Multiplicadas feições do desejo de quem voaria para os braços do seu novo rapaz.

(É deveras deselegante quando em uma turma -na mesa de bar ou restaurante-, alguém ou toda gente junta se joga no crochezinho e esquece a humanidade. Quanta deselegância e fraqueza d´alma).

Uma moça que caminha, desacompanhada, para pegar um avião rumo à felicidade, não. Não mesmo. Nada mais justo que esquentar o encontro com promessinhas calientes. Vale.

Tente vê pelos olhos do cronista. Ela ri com maldade, ela respira fundo, ela aperta o celular brevemente sobre os peitos. Para completar, a moça usa calças vermelhas, como a espiã sexy Brigitte Montfort (acima) desenhada pelo Benício para os livrinhos de bolso da série ZZ7, pulp fiction imperdível.

Opa, o raio-x apita a luz em vermelho, mas não há sinal de proibido para o desejo que já corre mundo. Ela dá meia volta como se nada tivesse ocorrido.

Tira o casaco, no que se revelam tatuagens incríveis nos braços, uns braços, ave!, como naquele conto machadiano que li ainda na escola.

Tira o sapato… que pezinho! Tira colar, pulseiras, cinto… O belo strip-tease aeroportuário.

Apita mais ainda no raio-x. Meia-volta. O sorriso está mais safado ainda, meio Monalisa meio bocão-Jolie.

Uma mulher em fogo, com um São João de Arcoverde por dentro, sempre apitará no raio-x.

Da mesma forma que os machos com as monumentais ressacas também apitam. Trato daquela ressaca que mais parece uma dengue existencialista, as ressacas dos homens na madureza.

O certo é que depois de muitas tentativas, a moça seguiu no seu inabalável crochezinho tecnológico para o avião. A cada mensagem, um gesto; encolhia a hipótese de barriguinha –toda mulher tem que ter no mínimo uma hipótese de barriguinha, como Vinícius dizia.

Na sua poltrona 7D, imprensada entre dois homenzarrões, fez o crochezinho do amor e da safadeza até a aeromoça nervosa proibi-la. Fechou os olhos, apertou as mãos grudadas entre as pernas e dormiu entre as nuvens de algodão agridoce –como o tempero dos seus pratos prediletos.

Logo mais estaremos no Galeão…

Esteira, mala etc, e a moça no crochezim irrefreável… Só levantou a cabeça ao cruzar a porta de saída e avistar o seu novo rapaz,  um barbudinho moderno e quase hipster,  segurando desajeitadamente um maço de flores entre as pernas. Só assim conseguia digitar seu ponto cruz do tesão inadiável.

O beijo também foi desajeitado, coisas dos primeiros encontros… Os celulares se espatifaram em um  chão de estrelas, as flores lindamente amassadas entre os dois… Agora, torço, menos crochezinho e mais questão de pele, como falavam os sábios e velhos hippies.

Afinal de contas, sempre vale repetir aqui o mantra greco-carioca do poeta Eduardo Cac: para curar um amor platônico, só uma trepada homérica.

Gosto muito de você leonina

Por Xico Sá
08/08/14 01:46

cordeldaritalee_jborgesAgosto venta nas nossas fuças e agosto, por mais que seja, jamais apagará uma vela de um bolo de uma leonina.

Hoje mesmo, aqui na Vila de Cimbres, Pesqueira, Pernambuco, fui abordado por uma amiga de tal signo, vivendo um inferno astral daqueles que nos sugerem a mística ventania shakespereana, o vento forte capaz de alisar o cabelo do capeta.

Leonina, teu nome é tempestade.

No que me chegou, além dos belos afilhados do cacique Chicão, os Xucurus, umas amigas que discutiam astrologia, vê se pode, no que este cronista disse o possível do que ele ama e considera das mulheres desse período fértil:

Já tive três mulheres de Leão, digo, três mulheres de Leão me tiveram, dominaram, fizeram gostoso e bonito.

Não estou falando dessa coisinha cujo status de hoje seria “estamos em um relacionamento do tipo fala sério”.

Falo de amor, independentemente da temporada no inferno.

Uma de casar, morar junto, duas do tipo “quero me embolar nos teus cabelos, te abraçar o corpo inteiro, morrer de amor, de amor me perder”.

Não entendo nada de horóscopo, embora aprecie a narrativa astrológica desde Omar Cardoso no rádio. Os mais velhos lembrarão do mantra dele: “Todos os dias, sob todos os pontos de vista, vou cada vez melhor”.

Precisasse yo de uma desculpa intelectual, recorreria aos escritores argentinos, que amam enfiar o zodíaco na parada, como Robert Arlt no livro “A viagem terrível”, por exemplo.

Não é o caso. Um cronista vira-lata não carece de ilustríssimas desculpas.

Não entendo de astrologia, mas compreendo um pouco das leoninas.

Sim, o amigo cético aqui do Papillon, cearense garçom que já batizei de Ciço Cioran, me deu a real da guerra ao ouvir o meu papo em uma roda de saias, sábado em Copacabana:

- Larga de ser lesado, toda mulher, por natureza, já nasce leonina pra cima da gente!

Bicho sabido.Pense!

Faz todo sentido. Assim como todo mulher é meio assim Leila Diniz –uma ariana-, toda mulher tem um quê de leonina.

Seria o signo do mando feminino, caríssima Bárbara Abramo? Lembro que falaste:

“No amor, o leonino se destaca pelo romantismo, dramaticidade e sensualidade. Este é o signo do amor cortês e da conquista, que faz de tudo para ser o centro das atenções, mas também trata como uma pessoa especial o ser amado. Galante e possessivo, o que mais o atordoa é a rejeição, o descaso e a frieza.”

Gosto muito de te ver, leoazinha. Com fome, então, imita a fera na selva: é incapaz de ouvir uma palavra, mesmo do nosso discurso amoroso. Parte para cima, sexy e carnívora, chorizo y malbec, rasgando ditongos crescentes nos dentes, nas presas, como C. estraçalhava a precoce existência qual uma leoa do Discovery Channel.

Nunca deixe uma leonina faminta. Ou a gente resolve esse problema, nem que seja com um delivery, ou o mundo desaba. Falo em todos os sentidos.

Nunca deixe uma leonina faminta, por mais que ela seja independente, como costuma sê-la, mesmo assim a danada se manifesta qual início de filme da Metro, te cuida.

Como elas estão todas aniversariando nestes e nos próximos dias, imagina uma leonina faminta em pleno inferno astral?!. Desaconselho. Melhor enfrentar um tubarão de Boa Viagem mesmo.

Nada como a agressividade leonina. Não tem esse papinho Orestes Barbosa de pisavas nos astros distraída. Ela é a estrela e o chão que brilha.

Nada como uma leonina amuada logo quando acorda.

O mundo inteiro como jaula da zoologia fantástica. Domar, quem há de?

Nada também mais lindo quando ela desperta doida para ir à feira, comprar flores, botar disco novo, fazer festa em casa, reinventar os temperos do universo, acender velas sincretistas e fazer do homem dela o mais perfeito escravo do amor e do sexo.

Eu quero é que você me aqueça nesse inferno astral, leonina!

Enologia selvagem: vinho jurubeba (I)

Por Xico Sá
05/08/14 02:22

catuabaSauvage

Li agora, na revista “são Paulo” desta Folha, que a catuaba virou modinha de baladas de bacanas. Não sem merecimento, como diria o dublê de Conan aí acima do desenho do Benício que enfeita o rótulo da marca “Selvagem”.

Coisa linda. A cidade melhora quando uma bebida da ralé migra para outra categoria ou classe. Quando ocorre o contrário, melhor ainda, sinal que houve uma certa democratização do goró da gente phyna -fato social bem mais raro, põe raro nisso.

Aproveito o bigu na ótima matéria do colega Rafael Balago para resgatar uma velha crítica que fiz sobre outra fonte de embriaguez e sabedoria popular: a jurubeba.

Se no vinho metido está a verdade (In Vino Veritas), In Jurubeba Fabulari, ou seja, na jurubeba está o poder de fabular,  mentir, xavecar etc.

Sem mais arroto, vamos à sofisticada degustação deste sommelier da caatinga:

A primeira expedição, como no filme “Sideways”, teve como destino Aratu, na Bahia. Não poderíamos iniciar com outro licor dos deuses que não fosse o vinho macerado da Solanum paniculatum, a rica fruta conhecida vulgarmente como jurubeba, a pinot noir de quem nasceu para beber, não para cheirar a rolha e desgustar como uma freira.

Mal você abre a tampinha de lata reciclada –é mais ecológico, a cortiça vive uma crise na Europa-  e já percebe se tratar de um vinho compacto, com um bloco de aromas em leque perfumando o ambiente, mesmo o pior dos pés-sujos da Lapa de Baixo.

De perfil aromático limpo e complexo –nosso crítico também não trabalha com amadeirados e quetais-, o Jurubeba Leão do Norte guarda a essência de extratos de cravo, canela, quássia, boldo e genciana. O tanino de caráter rijo junta-se ao caramelo de milho e dá tintas finais à uma coloração entre o rubi e frutas negras do semi-árido -com halo aquoso ainda em formação.

Repare no sabor fugidio do jatobá e da flor de muçambê, com florais de mulungu e pau-d´arco ao longe. No todo, o equilíbrio chama a atenção. E de que mais precisamos, amigo papudinho, do este suposto equilíbrio no momento da volta ao lar doce lar?!

O vinho de jurubeba harmoniza bem com a gastronomia de sustança. Pratos sugeridos: mocotó, mão-de-vaca, chambaril,  bode e caprinos no geral, javali, teju etc.

Podemos aplicar ao jurubeba o mesmo impressionismo paradoxal que o renomado crítico Robert Parker usou para definir o Romanée-Conti: “Aromas celestiais e surreais…”. Seja lá que diabo ele quis dizer com essa xaropada de adjetivos.

Saúde! Porque se os outros vinhos ajudam o coração, o jurubeba é reconhecido na medicina popular como um fortificante da cintura para baixo. Afrodisíaco no último.

Até a próxima visita às adegas e aos alambiques mais roots do país. Mande também a sua sugestão de nossos melhores licores.

E lembre-se, amiga, antes uma bela de uma mentira amorosa de um macho-jurubeba do que uma verdade arrotada por um homem-bouquet -aquele camarada que aplica o caô do especialista em vinhos finos. Corra Lola, corra.

Lea T., te amo em número, gênero e grau*

Por Xico Sá
31/07/14 01:43

LeaT03

Sem essa de degustação ou vida gourmet. Deixo ai, porém, um tira-gosto do meu livro novo, coisa de macho-jurubeba, pô!, já nas boas casas do ramo. E dá-lhe jabaculê explícito. A causa é nobre e, como diz meu amigo Juca Chaves, ajude o pobre escritor a comer o seu caviar.

Agora falando sério…

Querida Lea T, viraste mulher e fui o último que soube. Isso não se faz, mas como não te perdoar, se o amor tudo pode?

Perdoadíssima estás.

Mesmo eu tendo que rever esta tua foto aí acima com o maldito fotógrafo Terry Richardson. Mesmo assim. Até o hype está perdoado. Por tua casa, tua nobre causa.

Viraste mulher e fui o derradeiro a tomar ciência…

Já eras a mais bonita brasileira mesmo sem operação alguma. O arquivo vivíssimo deste cronista prova o que disse quando ainda, anatomicamente, eras homem. Não importa o quadradinho que tu preenchas na ficha do hotel: não fere o meu lado masculino, como canta o Pepeu.

Lea, eu poderia ter ido contigo a Bangcoc e segurado na tua mão na hora do mais epistemológico dos cortes. Conheço a Tailândia e poderíamos passear depois. Nós nos divertiríamos como nunca.

Por escrito é a segunda vez que rogo a uma deusa o privilégio de tal sacramento apostólico romano.

Havia pedido, em público, apenas a mão da Luiza Brunet, depois de uma epifania na Flip, em Paraty, onde novamente me encontro agora.

Sei que tens um mundo a teus pés, os modernos de Milão e Londres etc.

Mesmo assim insisto: casa comigo!

Não tenho lá essas posses, mas te garanto casa, comida, roupa lavada e cafunés. Não sou lá grandes coisas, mas junto a ti viro o mais orgulhoso dos machos.

Te beijo na boca em pleno Ba-Vi, nas arquibancadas do Barradão ou de Pituaçu. Depois vamos jantar com o Toninho Cerezo, o sogro dos sonhos, no Rio Vermelho ou derredores.

Saudemos a escritora Simone de Beauvoir, Leazinha. Não se nasce mulher, torna-se mulher, como lembraram, em lindo texto sobre ti, as meninas Bruna Narcizo e Thaís Botelho, na revista IstoÉ Gente – saiba que acompanho tudo sobre a sua vida e obra.

Tu te tornaste a mais bela delas, menina Lea. Este corpo agora te pertence.

Com respeito, admiração e o amor possível, teu noivo platônico, Francisco.

*Esta crônica  faz parte d´O Livro das Mulheres Extraordinárias (ed. Três Estrelas).

No pinga-pinga do amor líquido

Por Xico Sá
27/07/14 21:57

JulesEtJim

Ou Oração subordinada às moças e aos rapazes de boa vontade.

Domingo gelado, coração idem, posta a amiga da Vila Tolstói, ZL, São Paulo.

Pergunto sobre casos, namoricos, ficâncias, encontros do Tinder e outros eventuais acontecimentos do pinga-pinga do amor líquido.

A nega andara fazendo bom-uso do Tinder, na leveza, sem preconceito.

W., porém, não está nada bem. A frequência e o vazio dos encontros, relata, a deixou numa ressaca dos diabos.

Tento a demover pelo menos da parte moral do desespero –ainda não criaram o Engov da culpa.

O domingo gelado não deixa. Dá mole para a tristeza em um final de domingo é o mesmo que botar o enfezado bode sartriano para tomar conta do capinzal da existência.

Com algum desdém, mas querendo ouvir de novo, W. pede que leia para ela ou envie por email uma velha crônica sobre os descrentes no amor. A miseravona ainda chama de “auto-ajuda chique”, só para me irritar um pouquinho de nada.

Seja o que for, nesse domingo gelado de coração idem, ai vai minha oração subordinada às moças e aos rapazes de boa vontade;

Triste de quem fica desiludido(a) e evita outro amor de novo, cai no conto, blasfema, diz “tô fora”, já era, tira onda, ri de quem ama, pragueja e nunca mais se encontra dentro das próprias vestes.

Como se o amor fosse um quiosque de lucros, a bolsa de mercadorias e futuro, um fiado só amanhã, um comércio.

Como se dele fosse possível sair vivo, como nunca tivesse ouvido aquela parada de Camões, a do fogo que arde e não se sente, a da ferida, aquela sampleada por Renato Russo.

Triste de quem nem sabe se vingar do baque, sequer cantarola, no banheiro ou no botequim, “só vingança, vingança, vingança!”, o clássico de Lupicínio, o inventor da dor-de-cotovelo, a esquina dos ossos úmero com os ossos ulna (antigo cúbito) e rádio, claro, lição da anatomia e da espera no balcão da vida.

Tudo bem não querer repetir, com a mesma maldita pessoa, os mesmos erros, barracos  e infernos avulsos e particularíssimos.

Triste de quem encerra o afeto de vez, como se aquela mulher e/ou aquele homem “x” fossem fumar o king size -duvidoso e sem filtro- lá fora e representassem o último dos humanos.

Chega do mané-clichê: todos os homens ou mulheres são iguais. Argh.

São, mas não são, senhoras e senhores. Cada vez que uma folha se mexe no universo a vida é diferente – acho que roubei isso da arte zen de consertar motocicleta.

Todos os machos e todas as fêmeas são novidades. Podem até ser piores, uns mais do que os outros, porém dependem de vários fatores. Não adianta chamar o garçom-do-amor e passar a régua para sempre por causa de apenas um traste. Como se esta miserável criatura representasse a parte pelo todo da panelinha do mundo.

Já pensou quantos amores possíveis você estaria dispensando por essa causa errada?

E quem disse que amor é para dar certo?

Amor é uma viagem. De ácido.

E tem mais: a única vacina para um amor perdido é um novo amor achado. Vai nessa, aconselho! Só cura mesmo com outro. Mesmo que um placebo.

Muitas vezes não temos o amor da vida, mas temos um belo amor da semana, da quinzena, que de tão intenso e quente logo derrete. Foi bonita a festa, pá e pronto.

Vale tudo, só não vale o fastio e a descrença. Levanta desta ressaca amorosa, meu Lázaro, minha Lázara.

O velho do ovo esquerdo de fora

Por Xico Sá
24/07/14 03:43

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“Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz.”

Tempos desses que parecem ontem estava conversando com o amigo e escritor Paulo Lins sobre a frase/verso de Vladimir Maiakovsky.

O mesmo poeta russo do “gente é para brilhar” etc.

Donde acabei por achar o personagem:

Feliz é o velho do ovo de fora. Nem aí para a humanidade. O ovo esquerdo, a parte mais delicada de um homem, flertando com o mundo em uma esquina de Copacabana.

Nem sei se presta atenção nestes detalhes particulares. Simplesmente veste a ceroula branca, clássica, e vai tomar sua cerveja.

Deve ter várias ceroulas brancas, umas 365 pelo menos. A única vez que o vi diferente estava com um calção de malha, igualmente relax, de um patriótico pijama verde-e-amarelo –era Copa do Mundo de 2014.

Só os meninos da banda punk “TeXtículos de Mary” me entenderiam a essa altura.

Quando o velho chega cedo ao Papillon, seu bar predileto na esquina da Miguel Lemos com a Barata Ribeiro, senta na calçada e o ovo toma um bronze sob o sol dos trópicos. Até aí, como diz o livro do Eclesiastes, nada de novo.

Alguns garçons, nos últimos verões, já o alertaram para o descuido. Ele nem ouve. Não há papo sobre o assunto, embora seja cada vez mais conhecido como o velho do ovo esquerdo de fora.

A bela licença poética de ser velho em Copacabana, dizem uns filósofos de botequim da área.

O bardo Fausto Fawcett, amigo de bairro e dos concertos do projeto “Trovadores do Miocárdio”, está de acordo, embora ache que o personagem seja bem mais rico.

Velho safado, nojento, sopram alguns passantes. Foi um grande artista de teatro, tv e cinema, outros narram a trajetória, sem precisão biográfica. Sequer alguém arrisca dizer o nome da tal figura.

Alheio a isso tudo está lá o ovão esquerdo. Faça calor ou clima ameno. Outro dia a Border collie de uma amiga resfolegava, em um momento de descanso, com a língua quase tocando naquele esquecido testículo. O velho e a cadela nem aí para a cena.

O ovo do velho é quase um personagem à parte em Copacabana, o bairro mais conhecido do mundo, onde reinam milhares de atípicas criaturas.

Por sacanagem, garçons do bar fizeram vaquinha para comprar calças compridas para encobrir as vergonhas do velho. Como se dinheiro para comprar roupas fosse problema do tio. Não mesmo. Goza de uma modesta, porém suficiente, aposentadoria de funcionário público da ex-capital da República.

Uma maluca viciada em crack faz bilu-tetéia com o ovo esquerdo do velho. Com delicadeza, óbvio. Ele sequer tira o olho do jogo do seu Vasco da Gama na tevê pela Segundona do Campeonato Brasileiro, meu caro Aldir Blanc.

O velho homem do ovo de fora é que é feliz e nem carece dessa ditadurazinha da felicidade óbvia.

Quando a eleição acaba amor e amizade

Por Xico Sá
22/07/14 01:21

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Até que a eleição nos separe, como diria o Amigo da Onça, o grande personagem de Péricles (na ilustração acima para os mais jovens).

Até que a eleição complique geral os relacionamentos. Seja no amor ou seja na amizade, começa a temporada de relações estremecidas por causa dessa velha invenção grega, a política.

Inevitável algum tipo de rusga quando o tempo fecha no botequim, no almoço de domingo na casa da sogra e principalmente nas redes sociais –essa imensa Boca Maldita virtual, só para lembrar o clássico local onde Curitiba discute as mais relevantes questões da humanidade, incluindo as mordidas do vampiro.

Até o começo dos anos 90, quando as coisas eram mais definidas entre esquerda e direita, dificilmente se formaria, entre os mais politizados, um casal de um(a) petista, por exemplo, com um(a) malufista.

Com a suruba eleitoral de hoje, como definiu o alcaide do Rio, as coisas mudaram muito. Óbvio que não é fácil encontrar um matrimônio entre um(a) jovem do PSOL e um(a) tucano(a).

O barraco ideológico até a apuração será inevitável. Não sei se isso é de tudo ruim. É democrático o embate, o conflito de ideias. Desde que não se bote a mãe no meio, como previsto já na Grécia Antiga.

Tem gente que tem paciência para a discussão; tem gente que não tolera. Óbvio:  se a amizade for firme mesmo, os laços de ternura irão estremecer mas resistirão às urnas.

Relacionamentos apenas virtuais, bem, esses serão destruídos em massa. A chacina já começou faz tempo

Não há manual para sair ileso. Se a Copa já foi politizada ao extremo, quando nego chegou a confundir CBF com órgão público, imagina na eleição, infinitamente mais passional e inflamável.

O arranca-rabo será ao melhor estilo Beco do Cotovelo, a tribuna pública de discussões filosóficas de Sobral (CE). Não foi à toa que ali mesmo, em 1919, a equipe de Albert Einstein comprovou, diante de uma eclipse do sol, a Teoria da Relatividade.

O pau vai cantar. O nível vai ser mais abaixado que mecânico de skate.

E você, leitor(a), já adotou um critério para usar nas redes sociais? Vai limar do seu círculo de relacionamento os amigos da onça?

Mesmo um pacífico anarquista-cristão da linha Tolstói, naturalmente contra o voto burguês, deve perder a paciência em algum momento.

Enfim, em que casos, você acha que é inevitável estragar uma amizade por causa das eleições?

O homem fofo é o canalha de fato

Por Xico Sá
18/07/14 00:31

Fritz_the_Cat

Ovídio, meu eficiente pombo correio do amor, não cansa de trazer mensagens e mais mensagens de corações trincados ou simplesmente descrentes nos homens. Ovídio arrulha, como se dissesse: meu amo, meu paciente conselheiro sentimental, te viras que a bronca é pesada. Novos ares, partiu, e lá se vai a avoante figura sobrevoando as encostas do morro do Cantagalo em busca de novas cartinhas.

O principal assunto das cartas que tenho recebido é o seguinte: o cara vem cheio de chabadabadás para cima das moças -principalmente nas redes sociais-, a conversa pega fogo, rola o encontro, o rapaz é fofo e carinhoso, o sexo para começo de história está ótimo, o menino joga na linguagem de um possível caso ou namoro, segue a vida, mais uma saída, um sexozinho gostoso de novo…

Alguns dão até presentinhos…

Fofo!!!

Aí do nada o desgraçado desaparece. Quebra geral a narrativa. Nem um sinal de tambor na floresta, necas de uma mensagenzinha, mesmo que sem graça, em uma garrafa atirada nos mares da internet.

A moça tenta um contato de terceiro grau. Nada. A moça, amigo, vos digo, não é uma desesperada que viu no encontro uma cena de matrimônio. Ao contrário. Estava na dela, tipo ele fala em casamento… ela toma uma coca zero. Nem aí mesmo.

Só fica puta da vida porque o miserável das costas ocas, o malassombro, não é claro no seu sumiço. Havia até falado em ver “O grande hotel Budapeste”, o filme, com a nega. Sem se falar em outras fofuras futuras etc.

Aí chegamos ao ponto, colega. Os fofos são os piores nesse aspecto. Só os fofos pulverizam o ambiente com o bom-ar das falsas promessas. Os fofos sentem a extrema necessidade de continuarem fofos. Amam ser elogiados pela utópica fofolândia que carregam no mapa imaginário de bolso.

Não vivem sem isso. São escravos da fofura ou da falsa e viciante fofura.

O cafajeste até deixa um certo suspense, afinal de contas sabe que o encontro de um homem e uma mulher é e sempre será dirigido pelo cineasta Hitchcock, mas o cafa não engana com os signos da fofice de um possível namoro. Todo cafa é apenas um budista -sem templo- que vive o momento amoroso.

O perigo, nesse sentido, amiga, vem do fofo. O que apenas prova que o contrário da cafajestice não é a fofura. O bom homem é, digamos assim, o homem normal, o homem da agricultura, da pecuária, o vaqueiro, o suburbano sem os arrotos do canalha-bouquet dos vinhos finos –mas aí já seria outra crônica.

O fofo pode ser sim um perigo. Sendo indie ou não.

O fofo sofre de um certo don-juanismo, a doença da conquista pelos bons modos e a boa impressão que causa. Aquele que faz a moça ligar para a amiga no dia seguinte e dizer, na euforia, “bicha, num acredito, o que é esse homem, tão sensível, curte literatura, ama o Morrissey…”

O fofo tem sangue frio na sua arquitetura da decepção. O fofo constrói todo um repertório de coincidência de meus livros, meus discos, minhas bandas etc.

Sumir todo mundo some, homem, mulher etc, mas na equação entre promessa e fuga ninguém supera a covardia –sentimental ou sexual- de um um homem dito fofo.

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